CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Fajã dos Padres

 

Fajã interposta entre o mar e parte sul da freguesia da Quinta Grande, a partir de cuja encosta marítima se formou.

Trata-se assim de um talude de terra formado por uma avalanche de tufo precipitado do cimo por sucessivas derrocadas. De grande fertilidade por remoção das terras, pois a inferior ocupava a parte superior no topo da rocha e vice-versa, as escórias e cinzas vulcânicas, carregadas de alcalinos, fertilizaram sobremaneira esta fazenda [...]. Por vezes novas quebradas vieram aumentar o volume agrário e curiosos pleitos se levantaram na contestação da posse, querendo uns seguir os seus terrenos onde quer que se achassem e outros tendo acidentalmente recebido, apoiavam-se em que o direito de propriedade vai na vertical, do solo ao céu.

A plantação das videiras de sercial e malvasia, pela situação especial do local, produziu os célebres vinhos da Fajã dos Padres [...]. A Fajã dos Padres é irrigada por meio do poço do Eiró, levada natural despenhada da penedia onde cavou um longo sulco que quando a água se estorce pelas aspersas lembra o peixe que lhe deu o nome [1].

Contrariamente ao que seria de supor, esta fajã não pertence à freguesia da Quinta Grande, mas sim ao Campanário.

Ainda que sendo hoje caricata esta particularidade, uma vez que nenhuma ligação tem com esta freguesia, é possível que, a quando da criação, a 24 de Julho de 1848, da freguesia da Quinta Grande, com base na desanexação de alguns sítios das freguesia do Campanário e de Câmara de Lobos, fosse mais fácil aos seus habitantes serem assistidos espiritualmente através da paróquia de São Brás do que através da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios. Com efeito, apesar da maior proximidade geográfica da Fajã dos Padres relativamente à sede da paróquia da Quinta Grande, seria muito provavelmente mais fácil aos seus habitantes irem à igreja do Campanário, motivo porque esta localidade não seria integrada, ou melhor, seria retirada da Quinta Grande a quando da sua transformação em freguesia, apesar de historicamente a ela pertencer.

Em 1626, foi a Fajã dos Padres invadida por corsários mouros que profanaram e destruíram uma capela aí existente, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Desta capela, que posteriormente terá sido reconstruída pelos padres jesuítas, poucos vestígios chegaram aos nossos dias.

Constituindo ao que tudo leva a crer, uma parte da quinta do Cabo Girão, também denominada, consoante o seu proprietário, de quinta de Manuel de Noronha, de D. Maria de Ataíde, de Luís de Noronha, dos Padres, da Companhia, ou ainda da Vera Cruz e de quinta grande, dada a sua extensão, é de supor que a Fajã dos Padres tenha tido durante muitos anos, os mesmos proprietários que a restante propriedade. Assim, depois de João Gonçalves Zarco, que foi o seu primeiro proprietário, a quinta passa para a posse de seu filho, João Gonçalves da Câmara, 2º capitão donatário do Funchal, que, por sua morte, a 26 de Março de 1501 e dando cumprimento ao codicilo feito no dia anterior, a transmite a seu filho Manuel de Noronha. Por sua morte, ocorrida por volta de 1535, passa a propriedade para a posse de Maria de Ataíde, 2ª mulher de Manuel de Noronha e depois para seu filho Luís de Noronha, que a transmite, por sua vez, também a seu filho Fernão Gonçalves da Câmara. A 27 de Abril de 1595, Fernão Gonçalves da Câmara, vende a propriedade aos Jesuítas, na posse de quem fica até 1759, ano em que foram despojados dos seus bens.

A passagem da propriedade da fajã pelos padres da Companhia de Jesus, viria a estar na origem da denominação porque é actualmente conhecida.

Depois de 1759, altura em que passa para a posse do Estado, a quinta terá sido sujeita a arrendamentos, até que em 1770 é adquirida, em hasta pública, por João Francisco de Freitas Esmeraldo, admitindo-se que o mesmo se tenha passado com a Fajã dos Padres.

Em 1886 a Fajã dos Padres era propriedade de D. Júlia de França Neto e tinha cerca de 40 habitantes, a maior parte dos quais exercia como actividade a pesca e dava obediência, no espiritual, á igreja de S. Brás da freguesia do Campanário [2]. A fazenda produzia algum vinho, considerado excelente, cana-de-açúcar, verduras e árvores de fruto e possuía um porto, tido como bastante sofrível e alguns barcos de pesca.

Depois de D. Júlia de França Neto, sucedeu na propriedade da Fajã dos Padres a sua sobrinha Eugénia de França Neto Dória, filha de João de Atouguia de França Neto e mulher do coronel Manuel de França Dória.

Em 1921, Eugénia de França Neto Dória, vende a propriedade a Joaquim Carlos de Mendonça, casado com Maria Isabel Vilhena de Mendonça. Em Maio de 1941 a posse da propriedade passa para alguns dos filhos do casal, que por sua vez, a 19 de Outubro de 1964, a integram numa sociedade denominada de Sociedade Agrícola da Fajã dos Padres.

Antes conhecida sobretudo pela qualidade dos vinhos que produzia, a Fajã dos Padres, tal como no passado, continua a ser alvo de uma grande aposta agrícola, por parte dos seus actuais proprietários, agora já não, propriamente nos vinhos, mas sobretudo na produção de frutos tropicais. Nos últimos anos, a exploração das suas potencialidades turísticas tem também vindo a ganhar importância crescente. Com efeito, desde Maio de 1997, a Fajã está dotada de um restaurante e neste momento, encontra-se, em fase de projecto, a recuperação das várias casas de habitação existentes no local, por forma a permitir uma melhor rentabilização turística, onde a oferta de um ambiente natural e integrando uma fácil acessibilidade ao mar, uma proximidade com a vida rural e um espaço de isolamento e sossego, de características ímpares, constituem os principais ingredientes.

Com o objectivo de permitir a rentabilidade do investimento foi construído um elevador entre a Quinta Grande e a Fajã dos Padres, concretizando-se desta forma um velho sonho das populações locais, abandonado com o desenvolvimento dos transportes rodoviários. Com efeito, em 1904 por ocasião de eleições, a imprensa da época dava conta de que se falava em ligar, por uma boa estrada a freguesia da Quinta Grande com a Fajã dos Padres, gastando-se nesta obra um máximo de 1.500$000 reis. Com esta passagem, em meia hora via-se a Fajã dos Padres e ali com facilidade se embarca para o Funchal e também fácil se torna conduzir para ali diversos comestíveis e importar outros, tornando assim esta freguesia um lugarejo de comércio; aliás tudo aqui fica, porque a condução pelo Campanário ou Câmara de Lobos é muito longe e portanto muito dispendiosa [3], [4].


 


[1]      Heraldo da Madeira, 27 de Maio de 1909.

[2]      In Novo Almanaque de Lembranças luso-brasileiro para o ano de 1886, p. 382.

[3]      Diário de Notícias,12 de Setembro de 1904.

[4]    Na edição de 19 de Setembro de 1996 Alberto Vieira publica um artigo sobre o vinho Malvasia e a Fajã dos Padres.

 

Câmara de Lobos

Dicionário Corográfico
Edição electrónica

Manuel Pedro Freitas

 

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