CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Freguesia de Câmara de Lobos

 

Depois da descoberta da Madeira, verificada a 1 de Julho de 1419, os seus descobridores começaram a exploração da sua costa e no primeiro dia atingiram a terra a que deram o nome de Câmara de Lobos. Esta denominação, que serviria depois de apelido ao navegador e chefe da expedição, João Gonçalves Zarco e seus descendentes, inspirar-se-ia tanto no aspecto em câmara ou remanso da terra acabada de atingir, como no facto de nessa altura, aí existir grande quantidade de lobos marinhos.

 

 

Criação da freguesia de Câmara de Lobos

A freguesia de Câmara de Lobos foi criada por volta de 1430, sendo uma das mais antigas da Madeira. A primitiva sede da paróquia foi a capela do Espírito Santo, tida como fundada por João Gonçalves Zarco, sendo contudo, mais tarde, transferida para a Igreja de São Sebastião.  Com a criação do concelho de Câmara de Lobos e sua instalação, verificada a 4 de Outubro de 1835, a freguesia de Câmara de Lobos passou a ser a sede do concelho. Terá sido, a partir desta altura que surge a denominação de vila dada à parte mais importante da freguesia, onde ficaram instalados os paços do concelho, apesar de nenhum Decreto ou Portaria atestar a concessão de tal categoria.

Por esse facto é suposto admitir que tal epíteto tenha sido utilizado por analogia com aquilo que acontecia com a generalidade das freguesias sede de concelho e que habitualmente eram vilas. Aliás, mais tarde, em 1940, nos termos do § 1º, do nº 3 do artigo 12º do Código Administrativo, aprovado pelo decreto-lei nº 31095, de 31 de Dezembro, essa categoria viria a ser rectificada, uma vez que é dada a todas as sedes de concelho. No dia 3 de Agosto de 1996, a vila de Câmara de Lobos é elevada à categoria de cidade.

 

Área, limites e organização administrativa e religiosa

A freguesia de Câmara de Lobos estende-se por uma área de 7,87 km2 e encontra-se limitada a Este pela ribeira dos Socorridos, a Norte pela freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, a Oeste pela freguesia da Quinta Grande e a Sul pelo mar.

Administrativamente está dividido em 26 sítios: Caldeira, Caminho Grande e Preces, Caminho Grande e Ribeiro de Alforra, Cruz da Caldeira, Espírito Santo e Calçada, Facho, Fajã, Garachico, Eras, Jesus Maria José, Lourencinha, Nogueira, Palmeira, Panasqueira, Pé-de-Pico, Pedregal, Quinta do Leme, Rancho, Ribeira da Caixa, Ribeiro de Alforra e Fonte Garcia, Ribeiro Real, Saraiva, parte Sul do Serrado de Adega e Torre, Vila e Ilhéu.

Em termos de organização religiosa, a freguesia de Câmara de Lobos compreende

três paróquias: a paróquia de Câmara de Lobos, a paróquia de Santa Cecília e a paróquia do Carmo.

A paróquia de Câmara de Lobos foi criada por volta de 1430 e tem a sua sede na Igreja paroquial de São Sebastião, situada na cidade de Câmara de Lobos. Até finais de 1960, altura em que se subdividiu em três, foi a única paróquia da freguesia. Em termos de área abrange o sítio da Vila, o sítio do Ilhéu, parte do sítio do Caminho Grande e Preces, parte do sítio do Serrado da Adega, o sítio do Pé-de-Pico, parte do sítio da Torre, parte do sítio da Palmeira e o sítio do Espírito Santo e Calçada.

O seu orago é São Sebastião e tem sob a sua jurisdição a capela de Nossa Senhora da Conceição, a capela do Espírito Santo e a capela de Nossa Senhora da Piedade.

A paróquia de Nossa Senhora do Carmo, foi instalada no dia 1 de Janeiro de 1961 e tem a sua sede na Igreja paroquial do Carmo, situada no sítio do mesmo nome. A esta paróquia correspondem os sítios da Caldeira; do Rancho; a parte sul do sítio do Ribeiro de Alforra e Fonte Garcia, pertencendo a norte à paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Garachico); o sítio do Caminho Grande e Ribeiro de Alforra e uma parte do sítio do Caminho Grande e Preces, pretendendo a extremidade norte à paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Garachico) e a extremidade sul à paróquia de Câmara de Lobos.

A paróquia de Santa Cecília, também foi criada no dia 1 de Janeiro de 1961. Tem a sua sede provisória na capela do antigo convento de São Bernardino, ao sítio da Torre, o seu orago é Santa Cecília e tem sob a sua jurisdição a capela de Jesus, Maria e José e a capela da Boa Hora. Fazem parte desta paróquia os sítios da Saraiva; Quinta do Leme; Jesus Maria José, Ribeiro Real, Lourencinha, a parte sul do sítio da Panasqueira, pertencendo a norte à paróquia de Nossa Senhora da Encarnação e a parte norte dos sítios da Palmeira, da Torre e do Serrado da Adega, pertencendo a parte sul à paróquia de Câmara de Lobos.

 

População

A freguesia de Câmara de Lobos possuía, em 1991, uma população presente de 14.920 e uma população residente de 15.097 habitantes, dos quais 7.224 eram do sexo masculino e 7.873 do sexo feminino.  É a freguesia mais populosa do concelho e a sua densidade populacional é de 1.912 habitantes por km2.

À sua população e, em particular à sua classe piscatória, são dados três epítetos, considerados, no entanto, depreciativos: o de pesquito pesquito, o de xavelha e o de charnota ou chernota chernota. Um outro epíteto, o de tangerino , provavelmente querendo vincar eventuais origens norte-africanas, é também referenciado como alcunha dos pescadores de Câmara de Lobos, não sendo no entanto hoje usado.

O termo pesquito é muito provavelmente uma forma depreciativa de querer dizer o mesmo que pescador. Chernota ou charnota são denominações que os pescadores de Câmara de Lobos costumavam dar em tempos aos chernes pequenos, espécie de peixe onde eram hábeis a pescar, provindo deste diminutivo o apodo com que ficaram a ser conhecidos. O epíteto de xavelha xavelha, que é mais conhecido e também mais depreciativo tem uma origem não completamente esclarecida, ainda, mais frequentemente se o associe à denominação de um barco característico desta localidade. Ainda que este termo não exista nos dicionários de língua portuguesa, poder-se-á admitir que a sua origem tenha resultado da evolução de palavras como xaveco - pequena embarcação argelina ou então embarcação pequena e ordinária - ou xávega - rede usada na pesca de arrasto pelos pescadores do Algarve ou também embarcação usada nessa pesca, hipótese mais plausível.

 

Património histórico

O património histórico da freguesia de Câmara de Lobos, é fundamentalmente constituído pela igreja de São Sebastião, pelas suas capelas, com particular relevo para a capela de Nossa Senhora da Conceição, pelo forno da cal, as salinas, o coreto instalado no largo da República e pelo ex-convento de São Bernardino Bernardino, neste caso não tanto pelo edifício, mas pela sua estreita relação com Frei Pedro da Guarda, um frade franciscano que aí viveu e morreu com fama de santidade. A existência de um marco em mármore situado no sítio das Heras recordando a mudança de denominação, em 1801, do desfiladeiro das Heras para estrada Real é outro elemento do património histórico da freguesia.

 

Igrejas, capelas e outras edificações religiosas

A freguesia de Câmara de Lobos possui três igrejas: a igreja matriz com a evocação a São Sebastião, construída nos princípios do século XVI; a igreja paroquial do Carmo, situada no sítio do mesmo nome e a igreja paroquial de Santa Cecília Cecília, antiga capela do ex-convento de São Bernardino.

Relativamente à igreja do Carmo, a sua construção foi iniciada a 29 de Julho de 1962, tendo a sua bênção ocorrido a 13 de Dezembro de 1969 e a dedicação ao seu orago, Nossa Senhora do Carmo, a 16 de Julho de 1986. Antes da sua bênção, serviu de sede a esta paróquia, criada em 1961, a capela de Nossa Senhora das Preces.

Para além destas três igrejas, a freguesia de Câmara de Lobos possui várias capelas, que não poderemos deixar de destacar, se não pelo seu interesse artístico ou arquitectónico, pelo menos pelo seu interesse histórico ou afectivo.

Sobrevivendo ao desgaste dos tempos, e ainda que nalguns casos, já pouco tendo a ver com as edificações originais, encontraremos a Capela de Nossa Senhora da Conceição, situada no centro da cidade de Câmara de Lobos e apontada como construída por João Gonçalves Zarco no primeiro quartel século XV, sendo de todas a mais importante; a Capela de Nossa Senhora das Preces Preces, situada no sítio do Caminho Grande e Preces, no lugar das Preces e construída, em 1683, pelo padre Francisco da Canha e Mendonça; a Capela de Nossa Senhora da Nazaré, situada no sítio do Caminho Grande e Preces, lugar do Serrado (Galego), construída  em 1751 por Maria Rosário; a Capela de Nossa Senhora da Boa Hora, situada no sítio da Torre e construída em 1640 por António Correia de Bettencourt e sua mulher Joana Henriques e alvo, no ano de 1899, de importantes obras de reconstrução; a Capela de Nossa Senhora da Piedade, situada no sítio da Caldeira e construída em 1800 pelo padre Manuel Gonçalves Henriques; a Capela de Jesus Maria José José, situada no sítio do mesmo nome, fundada em 1693, por Sebastião Gonçalves Cordeiro e sua mulher Luzia de Ornelas e, dedicada no ano seguinte, à Sagrada Família - Jesus, Maria e José; a Capela de São Cândido , situada no sítio do Caminho Grande e Preces, lugar da Fonte da Rocha e fundada em 1732 pelo Cónego Francisco Cândido Correia Henriques; Capela de Nossa Senhora das Dores, situada no cemitério da freguesia de Câmara de Lobos, construída em 1876 pela Câmara Municipal de Câmara de Lobos, tendo a bênção lugar no dia 18 de Fevereiro de 1877 e a Capela do Espírito Santo Santo, situada no sítio do mesmo nome e tida como fundada por João Gonçalves Zarco, nos primórdios da colonização. Reconstruída em 1720 e sido alvo de importantes reparações em 1908, esta capela serviu de igreja paroquial quando, por volta de 1430, foi criada a paróquia de Câmara de Lobos. Em instalações anexas funcionou no 2º quartel do século XX o Colégio da Preservação, uma instituição que recolhia raparigas durante o dia e onde para além de alimentação lhes era dada instrução.

Relativamente à capela de Jesus Maria José, em virtude de se encontrar muito degradada, foi por volta de 1945, alvo de reparação, mantendo contudo o seu traçado e características originais. Refira-se ainda que esta capela possui uma imagem de São João Baptista, que terá sido salva, segundo o povo, tal como o sino e pia baptismal, da antiga capela de São João Baptista, existente próximo à ribeira, no sítio do Serrado da Adega, por ocasião de um aluvião. Daqui se compreende a existência das imagens de Jesus, Maria e José e de São João Baptista na mesma capela e a realização das respectivas festividades em sua honra e alguma confusão relativamente ao seu verdadeiro orago. Curiosamente, apesar do seu orago ser a Sagrada Família, a capela de Jesus Maria José é mais conhecida como capela de São João, sendo também conhecido por essa denominação o lugar onde se encontra implantada, facto que atesta a importância da devoção a este santo.

Relativamente à capela de São Cândido, ela em 1950 encontrava-se em avançado estado de ruína e terá sido por essa altura alvo e reconstrução, mantendo da original as cantarias das portas e do altar.

 

 

Câmara de Lobos

Dicionário Corográfico
Edição electrónica

Manuel Pedro Freitas

Câmara de Lobos, sua gente, história e cultura