CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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A Freguesia da Quinta Grande
 

A Quinta Grande, é uma das cinco freguesias constituintes do concelho de Câmara de Lobos. Foi criada a 24 de Julho de 1848, a partir da desagregação de alguns sítios da freguesia de Câmara de Lobos e do Campanário, esta última na altura ainda pertencente ao concelho de Câmara de Lobos, tendo por sede a Capela de Nossa Senhora dos Remédios que, entretanto, desde 8 de Fevereiro de 1820, havia sido elevada à categoria de Curato.
Possui uma área de 4,19 km2 e uma população de 1976 habitantes, cuja riqueza económica provém sobretudo da agricultura e da construção civil. Em termos de património histórico e religioso haverá a destacar a sua igreja matriz, a capela da Vera Cruz, a capela de Santo António e a capela de Nossa Senhora de Fátima.

 

 

A freguesia da Quinta Grande é uma das 5 freguesias que constituem o concelho de Câmara de Lobos. É limitada a Este pela freguesia de Câmara de Lobos, a Oeste pela freguesia do Campanário; a Norte pelas freguesias de Câmara de Lobos e Campanário e a Sul pelo oceano Atlântico e pela freguesia do Campanário (Fajã dos Padres), limites que de acordo com o Padre Manuel de Nóbrega são muitos próximos daqueles que existiam na altura dos seus primeiros proprietários.
Possui uma área de 4,19 km2 e uma população que, de acordo com o Censo de 1991, atinge 1976 habitantes, distribuída por 463 agregados familiares e residindo em 604 alojamentos.
Ainda que a construção civil seja uma actividade onde se encontram empregados muitos dos seus habitantes, que para isso são obrigados a recorrer a empresas sitiadas fora da freguesia, a principal fonte de receita da sua população advém da agricultura, onde assume particular importância a horticultura.
 

A origem do nome
Até se chegar à sua actual denominação de Quinta Grande, passaram os terrenos que a constituem por diversas denominações, na maior parte das vezes relacionadas com o seu proprietário. Em 1501 era conhecida por Quinta do Cabo Girão, depois chamou-se de Quinta de Manuel de Noronha, seguindo-se as denominações de Quinta de D. Maria de Ataíde, Quinta de Luís de Noronha, Quinta de Fernão de Noronha, Quinta dos Padres, Quinta da Companhia, sendo ainda cognominada, em documentos oficiais de Quinta da Vera Cruz e finalmente Quinta Grande, numa alusão evidente à grandeza, em termos da sua dimensão como propriedade, denominação que, apesar de não se saber o momento a partir do qual surge, vem pelo menos do tempo em que era pertença dos jesuítas.

 

A criação da freguesia da Quinta Grande
Por morte do 2º capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara, ocorrida a 26 de Março de 1501, a propriedade da Quinta do Cabo Girão, herdado de seu pai João Gonçalves Zarco, passou, conforme codicilo efectuado na véspera da sua morte, para seu filho Manuel de Noronha. Sucedeu-lhe na propriedade da Quinta do Cabo Girão sua segunda mulher Maria de Ataíde, passando por consequência a propriedade a chamar-se de Quinta de D. Maria de Ataíde e, depois, para seu filho Luís de Noronha, que por sua vez a transmitiria também a seu filho Fernão Gonçalves da Câmara. A 27 de Abril de 1595 foi esta propriedade vendida por Fernão Gonçalves da Câmara aos Jesuítas, em cuja posse esteve até 1759, altura em que foram expulsos de Portugal e confiscados os seus bens. Da relação dos bens confiscados é referido a determinada altura que possuíam uma Quinta chamada da Vera Cruz, ou por outro nome a Quinta Grande, pela sua extensão. É livre e sem pensão alguma. Tem um edifício muito bom, foi comprada no ano de 1595 quando era quase toda baldia, com provisão real concedida por esmola.
Nos 10 anos seguintes à confiscação, os seus rendimentos foram arrematados em hasta pública, até que em 1770 foi a propriedade adquirida por João Francisco de Freitas Esmeraldo, pelo valor de 140 mil cruzados, tendo-se posteriormente fragmentado, devido à aquisição de vários terrenos por parte de antigos colonos ou agricultores.
Havendo na Quinta Grande um importante núcleo populacional, que pela sua localização se tornava muito difícil de socorrer espiritualmente, o bispo Diocesano D. Joaquim de Meneses e Ataíde, determinou, na sua provisão de 8 de Fevereiro de 1820 estabelecer um curato na capela de Nossa Senhora dos Remédios, dependente tanto do Campanário como de Câmara de Lobos.
De acordo com o documento de criação do curato [...] achando-se a capela de Nossa Senhora dos Remédios sita na Quinta Grande, em tal posição que abraça os lugares mais distantes das paróquias do Campanário e de Câmara de Lobos com utilidade dos Reverendos Párocos e pronto socorro dos povos confinantes enquanto Sua Majestade El-Rei Nosso Senhor não aprovar o plano que lhe propusemos, usando de uma favorável epiqueia bem análoga à sua bem conhecida Piedade, amor aos seus Vassalos, sem encontrarmos de modo algum os direitos inauferíveis que lhe competem e que reconhecemos com a maior submissão e respeito, precedendo como há precedido o consentimento dos Reverendos Vigários, o qual ainda que não houvesse ficava suficientemente suprido pela importância da utilidade e necessidade pública na presença da qual cedem todos os direitos e utilidades particulares, mandamos que um dos Reverendos Beneficiados da Colegiada de Machico seja daqui por diante Cura Coadjutor do Reverendo Vigário do Campanário do bairro das Fontainhas e Quinta Grande da Capela da Vera Cruz inclusive para a parte da cidade e que contém noventa e três casais, e do Reverendo Vigário de Câmara de Lobos no sítio do bairro da Cama do Bispo e bairro da Cadeirinha, compreendendo quarenta e um casais, para lhe administrar os Sacramentos do Baptismo, da Penitência, Eucaristia, Viático, Extrema Unção e Matrimónio havendo de correr esta mesma capela os Proclamas respectivos dos quais receberá somente a Quarta parte que pertence aos Curas, bem como a Terça parte dos benesses e ofertas dos baptizados [...]. Porque nos devemos conformar com as Ordens Régias expedidas sobre os cemitérios fora das igrejas: ordenamos que os falecidos nos mencionados lugares sejam sepultados no mesmo lugar que lhe destinamos da mesma Capela.
Contudo, em 1848, por carta régia de 24 de Julho, este curato elevar-se-ia à categoria de paróquia autónoma, tendo como sede a mesma capela de Nossa Senhora dos Remédios.
 

Organização administrativa e religiosa

 

Administrativamente a freguesia da Quinta Grande compreende os sítios de Aviceiro, Fontaínhas, Fontes, Igreja, Lombo, Quinta, Ribeira do Escrivão, Vera Cruz e Câmara do Bispo.
Em termos religiosos à freguesia da Quinta Grande corresponde uma única paróquia, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios e sob a qual se encontram juridicamente dependentes três capelas: a capela da Vera Cruz, cuja primitiva construção é atribuída a João Gonçalves Zarco; a capela de Nossa Senhora de Fátima, sagrada a 11 de Outubro de 1931 e nos anos 70 demolida e substituída por outra de maiores dimensões e a capela de Santo António. Apesar de bastante danificada em virtude de um incêndio ocorrido a 20 de Julho de 1996, a capela de Santo António, é uma capela privada, situada na Quinta do Pomar, tendo sido construída em 1883 e benzida no ano seguinte, a 4 de Setembro.
No tempo perdeu-se a capela de Nossa Senhora dos Remédios que desapareceria em consequência da sua ampliação e transformação na actual igreja matriz e a Capela de Nossa Senhora da Cadeira, também conhecida por Cadeirinha, construída no sítio do Aviceiro, num local popularmente conhecido por sítio da cadeirinha e cuja existência é, ainda hoje, atestada pela tradição popular. Existem também referências a uma outra capela hoje desaparecida, em honra da Virgem Nossa Senhora no lugar chamado de porta da Quinta, no sítio da Quinta, mandada construir segundo tudo leva a crer pelos jesuítas à entrada da quinta da sua residência. Terá sido, aliás, muito provavelmente a existência desta quinta de residência que deu origem à denominação do sítio da Quinta.

 

Motivos de interesse
O miradouro do Cabo Girão, apesar de habitualmente associado à freguesia de Câmara de Lobos, pertence efectivamente à Quinta Grande e constitui o principal motivo de interesse turístico desta freguesia. Naturalmente que para além deste, outros motivos existem, nomeadamente a igreja paroquial, a vista que é possível vislumbrar desde o miradouro sobranceiro à Fajã dos Padres e o cume do Pico do Galo, onde se encontra implantada a capela de Nossa Senhora de Fátima e donde é possível ter uma panorâmica não só de Câmara de Lobos, Estreito e Funchal, mas também de algumas das zonas altas do concelho da Ribeira Brava.
A presença de um armazém de vinhos da firma Henriques & Henriques, construídos no sítio da Ribeira do Escrivão e inaugurado a 9 de Junho de 1994, poderá também constituir o motivo de visita para quem queira tomar um contacto mais estreito com os processos de produção do vinho Madeira.

 

Festividades e iniciativas culturais
A festividade mais importante da freguesia da Quinta Grande é a festa em honra do seu orago, Nossa Senhora dos Remédios, realizada no segundo Domingo de Setembro, e que atrai inúmeros forasteiros. Na capela de Nossa Senhora de Fátima, transformada logo após a sua bênção e durante um curto período, num importante centro de culto e peregrinação, com peregrinações mensais, hoje tem as suas cerimónias festivas reduzidas ao 12 e 13 de Maio e, ainda ao 13 de Outubro.
Na capela da Vera Cruz, as festividades ao orago celebram-se no dia 3 de Maio se coincidir com um Domingo ou primeiro Domingo seguinte, no caso de tal não se verificar.

 

Instituições de recreio e cultura
Em termos de instituições de natureza recreativo-cultural, a  freguesia da Quinta Grande, a exemplo do que acontece com todas as outras freguesias do concelho de Câmara de Lobos, possui uma Casa do Povo, com estatutos aprovados a 24 de Julho de 1995, e ocupando instalações inauguradas a 28 de Setembro do mesmo ano.
Possui a Casa do Povo um grupo folclórico, denominado de Grupo Folclórico da Casa do Povo da Quinta Grande, colectividade esta fundada a 12 de Setembro de 1988, por João de Carvalho, sob a denominação de Grupo Folclórico da Quinta Grande, mas que viria a ser  integrado, em Janeiro de 1996, na Casa do Povo local, entretanto criada.

 

Figuras ilustres
São tidos como naturais da freguesia da Quinta Grande o bispo D. Mateus de Abreu Pereira, nascido a 8 de Agosto de 1742, na Ribeira dos Melões e falecido a 5 de Março de 1824, na cidade de São Paulo no Brasil; D. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade nascido a 14 de Março de 1767 e falecido também na cidade de São Paulo, no Brasil, onde foi bispo, tendo sucedido nesse cargo a Mateus de Abreu Pereira e o Cónego António Joaquim Gonçalves de Andrade, nascido a 7 de Dezembro de 1795 e falecido, em Lisboa a 16 de Janeiro de 1865, tendo posteriormente os seus restos mortais sido trasladados para o Funchal.
Na sua reunião de 9 de Julho de 1998, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, sob proposta da Junta de Freguesia da Quinta Grande delibera atribuir o nome de Rua Bispo Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade ao caminho entre o Largo 24 de Julho de 1848 e o lugar denominado de Porta da Quinta.
Relativamente à naturalidade de D. Mateus de Abreu Pereira, convirá, no entanto referir, que existindo tanto nas freguesias do Campanário como da Quinta Grande um lugar denominado de Ribeira dos Melões, no ar ficará a dúvida sobre o lugar onde terá exactamente nascido, se naquele que hoje pertence a Campanário ou, se no que pertence à Quinta Grande, uma vez que em 1742 ambos pertenciam à freguesia de Campanário.
Ainda que não sendo natural da Quinta Grande, mas sim da freguesia de Câmara de Lobos, onde nasceu a 2 de Setembro de 1833 e faleceu a 6 de Janeiro de 1922, merece referência o Padre António Rodrigues Dinis Henriques, que durante 46 anos foi pároco da Quinta Grande. Por proposta da Junta de freguesia, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, na sua sessão de 9 de Julho de 1998 atribuiu o seu nome à estrada do Arieiro, ou seja à estrada entre a sede da Junta de Freguesia e o miradouro da Fajã dos Padres, na Quinta Grande.
Com o seu nome  ligado à freguesia da Quinta Grande está também o Padre António Silvino Gonçalves de Andrade, nascido no Campanário a 12 de Setembro de 1822 e falecido em Câmara de Lobos a 4 de Março de 1902. Foi pároco da Quinta Grande e proprietário da Quinta do Pomar onde, anexo ao respectivo solar construiu uma capela com invocação a Santo António. Na sua sessão de 9 de Julho de 1998 a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, por proposta da Junta de Freguesia deliberou atribuir o seu nome à estrada do Cabo Girão, ou seja, à estrada que se estende entre a sede da Junta de Freguesia da Quinta Grande e o Cabo Girão.
Ainda que natural de Santana, o Dr. João Francisco de Almada, tem também o seu nome ligado à Quinta Grande através de sua esposa  Ilda Beatriz Pinto Prado, que sucedeu, na propriedade da capela de Santo António e Quinta do Pomar, ao Padre António Silvino Gonçalves de Andrade. Na sua sessão de 9 de Julho de 1998, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, sob proposta da Junta de Freguesia  da Quinta Grande, deliberou atribuir o seu nome ao caminho de acesso à Quinta do Pomar, na sua extensão entre a Igreja e a Quinta.
A professora Alice do Carmo Gonçalves de Azevedo Pereira, apesar de também não ser da Quinta Grande, é outra das figuras por quem a população mais idosa desta freguesia nutre grande admiração, devido ao trabalho efectuado na área do ensino nesta localidade, onde foi uma das primeiras professoras oficiais. Na sua sessão de 9 de Julho de 1998, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, sob proposta da Junta de Freguesia da Quinta Grande deliberou atribuir o seu nome ao arruamento que se estende entre a estrada João Gonçalves Zarco e a sede da Junta de Freguesia.

 

 

Notas sobre algumas etapas do seu desenvolvimento

Relegada durante anos e anos ao esquecimento, o que se pode inferir pelo atraso com que a maior parte das infra-estruturas indispensáveis ao bem estar social da população lá chegaram, a Quinta Grande era até há relativamente poucos anos, não só a mais atrasada freguesia do concelho, como uma das mais atrasadas da Madeira.  Ao comemorar o 150º aniversário da sua criação, apresenta-se, no entanto em franco desenvolvimento e com perspectivas de melhorar ainda mais, caso todas as estruturas politico-administrativas, sociais e culturais sejam capazes de congregarem esforços nesse sentido. O facto de ter sido nos últimos anos dotada de importantes infra-estruturas, quer ao nível sócio-cultural, quer ao nível de saneamento básico e de vias de comunicação, de que se destaca a sua aproximação ao Funchal, através da via rápida, permitiu a criação de outras alternativas em termos de desenvolvimento, até então inacessíveis, e que urge saber delas tirar partido.
 

Pelo que nos é dado supor, a freguesia da Quinta Grande, apesar da sua proximidade do Funchal e da sua fácil acessibilidade, durante anos e anos ficou relegada ao esquecimento, situação que facilmente se pode comprovar pelo atraso com que algumas infra-estruturas ou bens foram sendo instalados.

 

Os estabelecimentos de ensino
A primeira escola instalada na Quinta Grande só surge depois de 1910, quando as outras freguesias do concelho de Câmara de Lobos, com excepção talvez do Curral das Freiras, já as possuíam havia dezenas de anos.
De acordo com o Diário de Notícias de 12 de Setembro de 1904, apesar de ter sido pedida a instalação de uma escola, na ocasião, a freguesia da Quinta Grande, ainda não a possuía. Aliás, por esta altura, para além da escola, a população também reivindicava a instalação de uma estação postal e a abertura de um caminho para a Fajã dos Padres, melhoramento que se revelaria de importância capital para a freguesia, tornando-a num lugar de comércio, dados os elevados custos de transportes de mercadorias por terra, quer a partir de Câmara de Lobos, quer a partir do Campanário. Em 1910, o Conselho Superior de Instrução Pública dá finalmente parecer à criação de uma escola masculina, desconhecendo-se se terá aberto na altura ou depois. Com efeito, de acordo com o Diário de Notícias de 12 de Julho de 1912, terá sido por essa altura colocado em concurso o preenchimento do lugar de professor, concurso esse que se desconhece se terá sido o primeiro ou não. Em Dezembro desse ano, segundo informações veiculadas pelo Diário de Notícias do dia 30, o Ministro do Interior propõe à assinatura presidencial a transformação da escola masculina em mista e, a 1 de Abril de 1913, de acordo com o mesmo órgão de informação estava, por essa ocasião aberto o concurso documental para o seu provimento mas que, ao que parece, não terão aparecido concorrentes, uma vez que em 30 de Outubro desse ano, o Diário de Notícias referia que na Quinta Grande se aguardava que fosse aberta uma escola.
Esta escola terá sido durante vários anos a única que existiu nesta freguesia, a acreditar em O Jornal, de 29 de Outubro de 1931 que refere que a Quinta Grande apenas possuía uma escola e que tal como em 1913 era mista.
Em 1952, numa reportagem publicada na edição do Jornal da Madeira de 27 de Julho, o padre António Rodrigues Ferreira dá conta de que na altura, a Quinta Grande possuía duas escolas, mas necessitava de pelo menos mais duas, escolas essas que haveriam de ser criadas no ano seguinte, facto confirmado por uma notícia inserta no Jornal da Madeira de 5 de Setembro de 1953 ao referir que haviam sido criadas na Quinta Grande 4 escolas, duas do sexo masculino e duas do sexo feminino.

 

Abastecimento de água potável
Tal como acontecia relativamente a outras freguesias do concelho, o abastecimento de água à Quinta Grande foi um problema que se arrastou durante anos e anos, ainda que aqui com maiores proporções.
Em 1932, numa freguesia com 1.200 habitantes dispersas por uma área de 4,19 quilómetros quadrados, existiam dois fontenários públicos, que na altura, com excepções pontuais no centro da sede do concelho, eram as infra-estruturas utilizadas pela Câmara, para resolver o problema do abastecimento de água potável às populações.
Com efeito, segundo refere o Padre Augusto Prazeres dos Santos, num artigo publicado na edição de 17 de Dezembro de 1932, a freguesia da Quinta Grande teria por essa altura dois fontenários, situando-se um deles, ao que tudo leva a crer no sítio da Igreja e que se supõe ter sido construído na sequência de uma deliberação da Junta Geral de 5 de Julho de 1923.
Em 1931, de acordo com O Jornal  de 10 de Junho, a problemática do abastecimento de água à freguesia da Quinta Grande havia sido abordada por ocasião de uma visita do presidente da Junta Geral a esta freguesia e onde teria chegado a prometer a construção de mais fontenários, promessa essa que fez com que o correspondente local de O Jornal se interrogasse sobre a sua viabilidade uma vez que nem havia água suficiente para abastecer os existentes!
Segundo o Jornal de 29 de Maio de 1940, a Câmara teria dotado, por essa altura, a freguesia da Quinta Grande com dois marcos fontenários sendo um no sítio das Fontes e outro na Vera Cruz. Havia muito tempo que os povos destas localidades aguardavam a sua construção, tendo a inauguração lugar no dia 28 de Maio desse ano, num acto pomposo a que não faltaram as mais altas individualidades do concelho, passando a existir quatro fontenários. Aliás, na sessão camarária de 11 de Fevereiro de 1953, respondendo a um ofício da Junta Geral, relativamente ao abastecimento de água à freguesia da Quinta Grande, a Câmara confirma este número e aponta a solução para o abastecimento de água, ao informar que na Quinta Grande para resolver esse problema, seria necessário fazer um estudo geral.
Ainda que outros fontenários tivessem sido posteriormente construídos e chegasse mesmo a haver, ao que parece, água de pena de distribuição pública, o abastecimento domiciliário de água potável só acontece verdadeiramente, a partir de 1 de Junho de 1996, altura em que é inaugurada a rede de abastecimento de água às freguesias do Estreito e Quinta Grande.
 

Assistência médica
A assistência médica efectiva, consequente à implementação do Sistema Regional de Saúde, chega à freguesia da Quinta Grande a 11 de Março de 1980, com a inauguração do correspondente Centro de Saúde. Antes dessa data, a assistência médica era precária. Não havendo qualquer médico com residência ou consultório na freguesia, os cuidados de saúde eram assegurados pelo médico municipal que à sua responsabilidade tinha não só Câmara de Lobos, onde residia, como a Quinta Grande, onde era obrigado a se deslocar uma vez por semana. Aliás desta situação dá conta o padre António Rodrigues Ferreira, em 1952, numa reportagem publicada no Jornal da Madeira de 27 de Julho, ao referir que uma das reivindicações da população era a presença permanente de um médico na freguesia, uma vez que o que lá ia, só o fazia com a frequência de uma vez por semana, isto em virtude de possuir consultório noutra freguesia. Para além disso, pedia um posto sanitário para prestar cuidados urgentes.
Calcula-se que a primeira vez que a freguesia foi dotada de médico terá sido por volta de 1901. Por essa altura a Câmara decidiu implementar uma cobertura médica de todo o concelho, dividindo-o em quatro áreas ou partidos médicos: um constituído pela Quinta Grande e zona oriental de Câmara de Lobos, tendo por divisória a Ribeira do Vigário; um segundo pela zona ocidental de Câmara de Lobos; um terceiro constituído pelas freguesias do Estreito e Curral das Freiras e um quarto pela freguesia do Campanário, fazendo corresponder a cada um deles um médico que seria contratado para prestar assistência aos doentes pobres.
Posteriormente a assistência médica seria dividida em duas áreas, uma compreendendo Câmara de Lobos e Quinta Grande e outra, compreendendo Estreito e Curral das Freiras.
No entanto, no período que antecedeu a instalação do centro de saúde, a Quinta Grande terá ficado durante vários anos sem qualquer tipo de assistência.

 

Iluminação pública
Ainda que não hajam, neste momento dados disponíveis para afirmar o momento a partir do qual, a Quinta Grande passou a dispor de iluminação pública, sabemos que ela existiria pelo menos em 1937, altura em que na sua sessão de 20 de Maio de 1937 a Câmara delibera dar de arrendamento o fornecimento de luz para iluminação pública, na proporção de 7 lâmpadas petromax na vila, 3 candeeiros de petróleo na freguesia do Estreito, 2 na freguesia do Curral das Freiras e 2 na Quinta Grande.
A iluminação eléctrica, essa chega só mais tarde, a 14 de Dezembro de 1958, tendo sido recebida com uma pequena festa e ao som dos acordes da Banda Municipal de Câmara de Lobos.

 

Telefones
Na sua edição de 27 de Julho de 1952 numa reportagem sobre a Quinta Grande, o então pároco, padre António Rodrigues Ferreira, referia que esta freguesia era a única na Madeira que não usufruía ou beneficiava de um único telefone, apesar de várias tentativas terem sido efectuadas. Aliás a mesma coisa acontecia com os transportes ligeiros de passageiros, tendo para o efeito de recorrer à praça do Campanário.
A propósito do telefone e reforçando aquilo que o padre António Rodrigues Ferreira referia relativamente às várias tentativas feitas, na sua crónica de 28 de Janeiro de 1931, o correspondente da Quinta Grande, a propósito da instalação de um segundo telefone na freguesia de Gaula, revolta-se contra o facto de na sua freguesia não existir um único, adiantando mesmo que não existia outra freguesia na Madeira, nas mesmas condições.
Como local para a sua colocação propõe a Cruz da Caldeira, ponto de grande movimento de estrangeiros.
Na sua crónica de 10 de Junho de 1931, o correspondente de O Jornal, a propósito da visita do presidente da Junta Geral à freguesia da Quinta Grande, refere que a população aproveitou a oportunidade para lhe pedir a construção de um largo atrás da igreja, bem como para a necessidade de instalação de uma cabina telefónica na Quinta Grande, mais precisamente na Cruz da Caldeira.
Na sua edição de 7 de Agosto de 1931, o correspondente do Jornal da Madeira, num breve levantamento relativamente às carências da freguesia volta a focar a necessidade de dotar a freguesia de um telefone, necessidade essa que é reconhecida pela Câmara ao solicitar à Junta Geral, de acordo com o Jornal de 18 de Setembro de 1931, a instalação de um telefone tanto no Curral das Freiras como na Quinta Grande.
Na sua edição de 19 de Setembro de 1931 o Diário da Madeira informa que a Junta Geral teria mandado orçamentar a instalação de uma cabina telefónica na Quinta Grande, melhoramento desde há muito reclamado e cuja instalação deveria ser feita na mercearia Higiénica, não só por estar ali instalada a Caixa Postal como por ser um dos pontos de mais concorrência da freguesia e fluxo de turistas, para além do seu proprietário saber falar bem inglês.
Contudo, a instalação do telefone não haveria de passar da fase de orçamento e, em 1946, o Eco do Funchal, na sua edição de 26 de Março, refere que os habitantes da Quinta Grande queixavam-se da falta de um telefone para que pudesse, em situação de urgência chamar socorros, adiantando ainda que a sua contestação era ainda maior porque, para além de ser uma pretensão antiga, não era compreensível que passando por esta freguesia os fios dos telefones do Campanário e da Ribeira Brava, ela não tivesse telefone.
Na sessão camarária de 11 de Abril de 1951 é presente um ofício dos CTT, informando que a instalação de um posto telefónico na freguesia da Quinta Grande estaria apenas dependente da existência de um compartimento adequado para tal fim. No entanto, uma vez mais dificuldades de vária ordem terão impedido a concretização de tão importante melhoramento e a 5 de Setembro de 1953, de acordo com o Jornal da Madeira, apesar de todos os esforços encetados, para ser conseguido um telefone para a Quinta Grande tudo continuava na mesma. Para Guido Monterrey, só a 23 de Junho de 1954 é que a Quinta Grande fica dotada de telefone, ainda que na sessão camarária de 13 de Fevereiro de 1957, tivesse sido presente uma carta de José Pereira Júnior, residente na freguesia da Quinta Grande, informando que havia sido criado naquela freguesia um posto público telefónico e telegráfico, agradecendo por esse facto a intervenção da Câmara Municipal de Câmara de Lobos.
 

Vias de comunicação
No início do século XX, o acesso à freguesia da Quinta Grande fazia-se através da então denominada estrada Real 23, que partindo do Funchal, passava por São Martinho, pelo centro da vila de Câmara de Lobos, seguindo o trajecto a que hoje corresponde a rua da Carreira e rua São João de Deus, continuando-se depois pelas Preces, Garachico, Cruz da Caldeira e Quinta Grande, prosseguindo depois para a Ribeira Brava. Depois de 1914, provavelmente a partir de 1916, a Quinta Grande passa a beneficiar do caminho novo, estrada monumental ou estrada nacional 101, hoje denominada, no seu percurso no interior do concelho, por estrada João Gonçalves Zarco.
Como acontecia em quase todo o seu trajecto, pelo menos fora dos principais centros habitacionais, era uma estrada estreita e raramente possuía mais do que 2 metros, pelo menos à avaliar pelos seus segmentos, ainda hoje existentes e que não foram incorporados em vias de comunicação construídas mais recentemente.
Dada a sua pequena largura é natural que em determinadas zonas, onde se verificassem regularmente maior concentração de pessoas, a população pedisse o seu alargamento.
Passando a estrada 23 junto à igreja da Quinta Grande era natural que dada a sua exiguidade para suportar o movimento de pessoas que recorriam à igreja, por ocasião das celebrações litúrgicas ou festividades, o seu alargamento se colocasse como uma das grandes necessidades da população da localidade. A este propósito, não esqueçamos que à festa de Nossa Senhora dos Remédios, no tempo em que os médicos eram poucos e as alternativas terapêuticas escassas, acorriam inúmeros forasteiros, afim de pagar graças alcançadas ou pedir a mediação na resolução de eventuais problemas que os afligiam.
Por esse facto desde o início do século encontramos várias referências à necessidade do alargamento deste caminho, no seu percurso pelo sítio da Igreja, bem como várias promessas feitas, nesse sentido, por parte das entidades oficiais e eventualmente notícias de um ou outra obra de alargamento segmentar, nomeadamente em 1945 e 1958.
A 17 de Dezembro de 1932, numa crónica publicada no Jornal, o Padre Augusto dos Santos referia a propósito das vias de comunicação que a Quinta Grande era servida em toda a sua largura pela nova estrada (estrada regional construída por volta de 1916) e também pela velha, ainda que votada ao abandono; não tem caminhos municipais, tem apenas atalhos descuidados.
Segundo o Jornal da Madeira de 6 de Setembro de 1953, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos projectava, por essa altura, a construção de um caminho entre a estrada nacional e a Igreja Paroquial, o que vinha ao encontro da população. Afinal de contas, era o cumprimento do desejo da população em ver o automóvel chegar ao centro da freguesia! A este propósito, e como curiosidade, refira-se que, de acordo com O Jornal de 3 de Dezembro de 1947, dias antes havia descido ao adro da Igreja uma abelhinha com grande admiração de toda a gente, reunindo-se à volta dela mais de 300 pessoas entre elas muitas crianças, facto que nos surpreende se tivermos em conta o caminho que teve de percorrer para chegar à igreja, não passava de uma agreste e estreita vereda.
Na sua sessão de 27 de Abril de 1960, depois de uma visita que efectuou à Quinta Grande, o presidente da Câmara informou os restantes vereadores da sua surpresa relativamente ao mau estado em que se encontrava o caminho municipal que liga a estrada nacional 101 à igreja daquela freguesia, sendo quase inacreditável que a igreja paroquial de uma freguesia que já no recenseamento geral de 1950 contava com 355 fogos, com uma população de 1834 habitantes não fosse servida por uma estrada que permitisse a circulação rodoviária. Segundo ele, esta população ansiava desde há muito ver a parte mais populosa da freguesia que é o sítio da igreja, servida por uma estrada por onde possa em caso de doença chegar-lhe um médico e com ele a esperança de uma cura rápida ou mesmo uma vida salva.
Em face do exposto deliberou a câmara encarregar o Eng. Aires Dionísio Marques de Oliveira Pestana de elaborar o projecto de uma estrada de acesso à igreja da freguesia da Quinta Grande, recomendando a máxima urgência neste trabalho.
Contudo, vários anos haveriam de decorrer até que o centro da freguesia ficasse dotado de acesso automóvel, o que pelas notícias publicadas na edição de 26 de Outubro de 1968 do Jornal da Madeira, só terá acontecido entre finais de 1968 e princípios de 1969, pelo menos no que se refere às obras de terraplanagem.
Depois desta obra, na década de 80/90 assistir-se-ia a um importante aumento da rede viária local, com a inauguração em 14 de Setembro de 1991 do caminho entre a igreja e o Cabo Girão; com a inauguração no dia 12 de Julho de 1991 do acesso à Fajã dos Padres; com a inauguração, a 3 de Julho de 1990 do caminho de acesso às Fontaínhas, não esquecendo, naturalmente a construção da via rápida Funchal-Ribeira Brava e o respectivo nó de acesso com que esta freguesia ficou dotada.


 

 

Câmara de Lobos

Dicionário Corográfico
Edição electrónica

Manuel Pedro Freitas

Câmara de Lobos, sua gente, história e cultura