CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Artigo de Manuel Pedro Freitas sobre a história do Largo Dr. Eduardo Antonino Pestana publicado no Jornal da Madeira de 28 de Dezembro de 1997

 

 

Largo Dr. Eduardo Antonino Pestana

 

É este o local onde, por excelência, se concentram os pescadores quando não se encontram na faina da pesca e, também, onde nos seus vários bares pode ser apreciada a tradicional poncha e saboreada a sapata ou a gata, popularmente conhecidas por bacalhau de Câmara de Lobos.

 

Largo Existente no centro da cidade de Câmara de Lobos. Possui conexões com a rua da Carreira, com a rua Brito Capelo e com a rua de São João de Deus, que aqui têm o seu inicio e, ainda com a rua de Nossa Senhora da Conceição, que nele termina.

É este o local onde, por excelência, se concentram os pescadores quando não se encontram na faina da pesca e, também, onde nos seus vários bares pode ser apreciada a tradicional poncha e saboreada a sapata ou a gata, popularmente conhecidas por bacalhau de Câmara de Lobos.

Com efeito, o facto da secagem destas espécies de esqualos, se fazer em Câmara de Lobos e o facto de, depois de secos, se assemelharem ao bacalhau explicam perfeitamente a sua forte relação tanto com o bacalhau, como com este centro piscatório.

 

A atribuição do nome ao Largo

Popularmente conhecido por Largo do Poço, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, na sua sessão de 23 de Fevereiro de 1966, deliberou atribuir o nome do Dr. Eduardo Antonino Pestana a este espaço. Como factores relevantes na decisão camarária para a homenagem, a deliberação adiantava o facto de ter nascido na vila de Câmara de Lobos, vivendo parte da sua mocidade no largo do Poço e o reconhecimento dos seus excepcionais dotes de carácter, inteligência, vasto saber e competência, como professor efectivo dos liceus, antigo director do ensino primário, jornalista, publicista e licenciado em letras e direito e advogado.

A cerimónia de descerramento das respectivas placas toponímicas, antecedida por uma sessão solene realizada nos paços do concelho, teve lugar no dia 26 de Agosto de 1966, num acto que contou com a presença de D. Elvira Gersão Pestana, viúva do homenageado.

 

O Poço da Vila

Ainda que este largo ostente, desde 1966, o nome do Dr. Eduardo Antonino Pestana e possua bem visíveis as correspondentes placas toponímicas, a verdade é que a tradição popular insiste na antiga denominação, sendo por isso mais conhecido por largo do Poço, do que por largo Dr. Eduardo Antonino Pestana.

Como explicação para esta situação está naturalmente o facto de outrora ali ter existido um poço que constituía a principal fonte de abastecimento de água à população da vila.

Com efeito,  ainda que, neste momento se desconheça a data da sua construção, sabe-se que, em Outubro de 1856 [1], este o poço era a principal fonte de abastecimento de água à vila e tinha abatido por esses dias necessitando, por isso, de reedificação urgente. Nessa altura é proposto que, tendo em conta os seus elevados custos e a falta de higiene até então patente, não só em consequência dos recipientes usados para retirar a água como ao facto do poço ficar aberto de dia e de noite e, ainda às despesas que acarretava para a Câmara, devido às frequentes substituições de baldes, correntes, etc., ele ficasse fechado, devendo a sua água ser conduzida ao canto de um pardieiro que lhe ficava em frente e onde se pudesse com facilidade colocar uma bomba para o serviço público com economia e maior higiene. Esta proposta ao que parece terá sido aceite e nesta mesma sessão é deliberado elaborar o respectivo orçamento e a aquisição das manilhas necessárias.

Ainda que se desconheça a forma como na altura tais obras terão sido efectuadas, ou se o foram nos termos da deliberação, sabe-se no entanto, através da pena do poeta camaralobense Joaquim Pestana que, em 1875 a Câmara havia construído um chafariz no centro da vila à margem da rua da Conceição, aproveitando a água do antigo poço [2].

Se este chafariz terá substituído a estrutura planeada em 1856, ou se foi só a partir de 1875 que esta se concretizou é a dúvida que, perante o conhecimento actual, se nos coloca. Contudo, a água deste poço transformado em fontenário, não teria a qualidade adequada e, em 1913, a imprensa denuncia esse facto e justifica tais afirmações referindo que as águas provinham da acumulação das de rega e da chuva dos quintais e terrenos vizinhos onde se infiltrava [3].

Apesar desta denuncia, este poço continuaria como fonte de abastecimento de água para a população e só em Março de 1915 é que a Câmara Municipal terá deliberado adquirir água potável para construção de um novo fontenário no local [4]. Desta forma, a fonte do poço que era alimentada com água impura de rega que se infiltrava nos terrenos vizinhos, viria a ser eliminada, trazendo para além da melhoria da qualidade da água oferecida à população, reais benefícios financeiros à Câmara, uma vez que deixaria de pagar o assalariado que se ocupava de a extrair por meio de uma bomba.

Passadas várias dezenas de anos, mais precisamente a 16 de Outubro de 1983, o antigo poço da vila volta a ficar a descoberto, desta vez não para abastecimento, mas para servir de marco histórico.

O poço da vila está certamente também associado à origem toponímica do Beco da Fonte, hoje desaparecido e que se estendia entre o local onde se encontra o actual fontenário nas proximidades do largo Dr. Eduardo Antonino Pestana e a rua da Administração. A sua denominação terá muito provavelmente surgido a partir do momento em que o poço foi tapado e a água desviada, conforme preconizava a deliberação camarária de 1856.

 

Os pontos  relevantes do Largo

Para além da existência do antigo poço de abastecimento de água e de ser o local onde por excelência se concentra a classe piscatória, o largo Dr. Eduardo Antonino Pestana, foi sempre pautado por uma intensa actividade comercial. Na realidade, o facto de ser o ponto de confluência de três importantes arruamentos, durante muitos anos os de maior actividade económica e social e constituir a passagem obrigatória para quem se queira deslocar ao cais, em cujas proximidades durante muitos anos esteve sitiada a praça do peixe, o matadouro e o mercado, ao varadouro, ao ilhéu e também, desde os primórdios da criação do município até 7 de Outubro de 1992, aos paços do concelho.

Antes dotado de um comércio retalhista, tipo mercearia, onde alguns dos estabelecimentos, a avaliar pelo conteúdo dos anúncios publicados na imprensa, possuíam capacidade de exportação e importação, hoje, neste largo, predominam os bares, onde a confecção da poncha e dos petiscos com base na sapata, gata e espada, constituem os aspectos mais característicos.

De 1 de Outubro de 1984 até 25 de Abril de 1994 esteve instalada neste largo uma agência da Caixa Geral de Depósitos, posteriormente transferida para a rua Pe. Eduardo Clemente Nunes Pereira.


 


[1]     Livro de Vereações da CMCL. Acta da sessão de 15 de Outubro de 1856.

[2]     VERRÍSSIMO, Nelson. Câmara de Lobos num Almanaque pela pena de Joaquim Pestana. Girão - Temas Culturais do Concelho de Câmara de Lobos, nº 9, 2ºsemestre de 1992, 419.

[3]     Diário da Madeira, na sua edição de 4 de Maio de 1913.

[4]     Livro de Vereações da CMCL. Acta de 23 de Março de 1915.

 

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Manuel Pedro Freitas

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