CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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A Praia do Vigário

 

A praia do Vigário situa-se na cidade de Câmara de Lobos, a sul do largo da República. Nela termina a ribeira do mesmo nome e que terá dado à praia o epíteto porque é hoje conhecida. Ainda que, ao olharmos para ela não vejamos mais do que uma pequena extensão de calhau, interceptada por uma ribeira em cujo leito correm águas de composição às vezes suspeita e tendo, a norte, uma inestética estrutura de betão que alberga uns balneários e um restaurante, a verdade é que a praia do Vigário tem uma história com alguma riqueza. Com efeito, muita da vida quotidiana da população da hoje cidade de Câmara de Lobos, nomeadamente da sua classe piscatória, passou por esta praia e onde haverá a registar actividades como extracção de areia, lavagem de roupa, preparação de aparelhos de pesca, isto para além de, ainda hoje, constituir o único local, no concelho, a que a população pode recorrer na época estival.

 

 

 

A Praia do Vigário situa-se na cidade de Câmara de Lobos e deve a sua denominação à ribeira do vigário, que nela tem a sua foz.

Contrariamente ao que poderá parecer tanto a sua denominação quanto o seu aspecto,  ela encerra um significativo historial.

Para além de constituir o mais importante espaço do concelho de Câmara de Lobos reservado a banhistas, esta praia fazia, até finais da década de 60, princípios da de 70, parte integrante do quotidiano da população camaralobense e, em particular, da classe piscatória. Preparação dos aparelhos de pesca, destinada à faina do peixe-espada-preto, lavagem e secagem de roupa e extracção de areia, destinada à construção civil, constituíam actividades que diariamente, mobilizavam no local, dezenas de pessoas.

 

O lavadouro

da praia do Vigário

Apesar de hoje a água correr em todas as habitações, tal nem sempre foi assim e o recurso à foz da ribeira do vigário, para lavar a roupa, onde a água antes de tocar no mar fazia pequenas poças, constituiu durante muitos e muitos anos uma alternativa para quem não dispunha de água canalizada em casa. Este espaço para além de permitir a lavagem da roupa, reunia ainda duas outras importantes particularidades com ela relacionadas: prestava-se para a secagem da roupa lavada, que para o efeito era cuidadosamente estendida sobre as pedras escaldantes do calhau e permitia que as crianças, que frequentemente acompanhavam as mães nessa sua tarefa de lavadeiras, pudessem brincar, sob o seu olhar atento.

A necessidade de criar uma infra-estrutura própria para lavagem das roupas, que possibilitasse a retirada das lavadeiras desde o leito da ribeira, onde, para além da falta de condições físicas, nem sempre a qualidade da água era a mais adequada, constituiria, pelo menos desde 1934 uma preocupação dos responsáveis camarários.

Na realidade, muitas vezes, na lavagem das roupas, para além de serem utilizadas águas estagnadas, nalguns casos também com elevado teor de sal, proveniente da contaminação marítima, a água da ribeira do Vigário, na ausência de uma rede de esgotos eficaz e de pouco civismo das populações residentes nas proximidades das suas margens ou dos seus afluentes, não deixava de conter um significativo nível de poluição.

Em Maio de 1934, a imprensa dá conta da vontade da Câmara em criar lavadouros públicos nas proximidades da ribeira do Vigário, aproveitando desta forma a água há muito perdida. Esta pretensão viria aliás a fazer com que alguém sugerisse que o mesmo deveria ser feito na ribeira dos Socorridos [1], [2]. Contudo, este desejo não viria a ter qualquer evolução prática. Em 1951,  a necessidade de construção desta infra-estrutura continua a se impor e uma vez mais a Câmara Municipal viria a tornar pública a vontade em a concretizar [3], [4].

Chegou esta obra a constar do plano de actividades que a Câmara pretenderia ver comparticipada nos anos de 1952 e 1953 ([5]) e, na sessão de 22 de Abril de 1953 chegou a ser presente um projecto de uns lavadouros para a vila de Câmara de Lobos, elaborados pelo Eng. Fernando Ribeiro Pereira, e que se presume destinarem-se à praia do Vigário, tendo a Câmara, na altura, deliberado incluir a sua construção no plano de actividades para o ano seguinte. Na sua sessão de 8 de Julho de 1953, a Câmara aprova o projecto e solicita a comparticipação do Estado para as respectivas obras, vindo posteriormente a incluí-lo no plano para 1954 e 1955 ([6],[7]). Contudo, os anos foram passando sem que esta obra pudesse ser concretizada. Em 1960, a necessidade deste melhoramento volta a constar dos planos da então vereação camarária que, na sua sessão do dia 27 de Julho desse ano, não só delibera solicitar à autoridade marítima autorização para construir um lavadouro na praia do Vigário, como escolhe João Gonçalves Telmo para elaborar o respectivo projecto, o que nos leva admitir que o anterior tenha sido abandonado ou se perdido, uma vez que a Comissão Administrativa, nesta altura era outra. Este novo projecto é alvo de aprovação em sessão camarária de 10 de Maio de 1961, altura em que também tem lugar o concurso para adjudicação das respectivas obras. Contudo, o não aparecimento de candidatos levaria a Câmara, na sua sessão de 24 de Maio de 1961, a deliberar efectuá-las por administração directa. Em Junho de 1961 [8], [9], [10], é deferido, pela Junta Autónoma dos Portos do Arquipélago da Madeira, o pedido de autorização antes formulado pela Câmara, no sentido de os construir num espaço de domínio marítimo, como era a praia do Vigário, facto que terá levado a que, de imediato, se iniciassem as respectivas obras, uma vez que na sua sessão de 9 de Agosto desse ano já seriam autorizados pagamentos as elas destinados.

Estes lavadouros viriam a ser posteriormente substituídos por outros, mais resguardados do mar, num pequeno sopé à margem esquerda da foz da ribeira do Vigário, onde se mantiveram, ainda que nos últimos tempos desactivados, até à sua destruição parcial ocorrida no dia 29 de Novembro de 1993, por ocasião de uns temporais ocorridos na Madeira.

 

Reduto da

Praia do Vigário

Terá sido, sensivelmente, nas proximidades do local onde, à margem da ribeira do Vigário, esteve instalado este último lavadouro que, em tempos mais remotos, terá existido um reduto de defesa de Câmara de Lobos. Ainda que Rui Carita nos seus vários escritos, a propósito das defesas da Madeira, não mencione a existência desta fortificação, o Heráldo da Madeira, numa reportagem sobre o concelho de Câmara de Lobos, na sua edição de 2 de Junho de 1907, faz referência a um reduto situado na margem esquerda da ribeira do Vigário a que dá o nome de reduto de São Sebastião ([11]).

A este propósito convirá recordar que o livro de património da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, possui em 1878, a referência, como propriedade da Câmara, ainda que em mau estado de conservação, de uma casa térrea no sitio do lugar de Câmara de Lobos, à ribeira do Vigário que outrora servira de vigia.

Este reduto viria posteriormente a desaparecer, não só, porque ficou em ruínas, como em consequência das obras de alargamento, para Oeste, do actual largo da República.

 

Extracção de areia

A extracção de areia era outra importante actividade exercida na praia do Vigário, muita da qual era depois transportada em sacas quer para Câmara de Lobos, quer para o Estreito de Câmara de Lobos e outras freguesias limítrofes, não só às costas de homens e crianças, mas também através da utilização de animais, nomeadamente de burros, isto naturalmente quando as posses dos compradores não permitiam suportar os custos do automóvel, ou quando este não era acessível ao local do destino da areia. Um outro importante ponto de extracção de areia, em Câmara de Lobos, era na foz da ribeira dos Socorridos.

 

Preparação dos

aparelhos de pesca

Sendo a pesca uma actividade extremamente importante e havendo necessidade de preparar os denominados aparelhos de pesca, utilizados na faina do peixe espada, a praia do Vigário, pela sua extensão e desimpedimento, constituía um espaço privilegiado para tal operação, como de resto acontecia com o Ilhéu, antes da construção do bairro piscatório.

A preparação dos aparelhos de pesca envolvia não só a confecção das respectivas linhas de pesca, como também o seu tratamento por forma a lhes aumentar a sua consistência e durabilidade.

Primitivamente esse tratamento era feito com um produto à base de ensaião. Para o efeito, o ensaião era triturado em pisões de cantaria e depois aplicado nas linhas, dando-se um aspecto negro. Esta actividade conhecida por farrobo, era habitualmente exercida por indivíduos que só a ela se dedicavam e conhecidos por barrobas. Posteriormente o ensaião viria a ser substituído por uma tinta própria, técnica que durou até à substituição das linhas de (..) por nylon [12].

 

A tragédia da praia do Vigário

É aliás, em consequência de todas estas actividades - pesca, lavagem de roupa e extracção de areia - e da movimentação de pessoas que elas faziam deslocar até à praia, que explicam a dimensão atingida por uma tragédia ocorrida no dia 4 de Março de 1930, que viria a ceifar a vida a quase duas dezenas de pessoas. Nesse fatídico dia, devido a uma grande quebrada verificada na costa marítima, próxima do cabo Girão e que terá entrado pelo mar dentro numa extensão de cerca de 200 a 300 metros, gerar-se-ia, devido à deslocação súbita das águas, uma gigantesca onda que invadiu a praia e foz da ribeira do Vigário, levando no seu percurso tudo o que encontrou pela frente, nomeadamente várias das mulheres que na altura lavavam roupas e os seus filhos que nas proximidades brincavam.

De acordo com a imprensa da época, na praia, nessa altura, encontravam-se cerca de 50 pessoas realizando diversas actividades: Numa espécie de lagoa, mulheres do povo procediam à lavagem de roupa; perto delas, em diferentes pontos, seus filhos, que como de costume as acompanhavam, brincavam; alguns homens, entre os quais pescadores, trabalhavam no aparelhamento de duas canoas que deveriam seguir para a pesca, outros cultivavam umas pequenas leiras de terra ali existentes ([13]).

Foram os pescadores presentes na praia bem como outros dois que se encontravam no Redondo, hoje largo da República, quem primeiro viram o avanço da onda e logo deram o sinal de alerta gritando para que as lavadeiras fugissem.

As pobres mulheres, dominadas pelo pânico nem tempo tiveram de pensar o que fazer, nem avaliar o perigo horrível que as ameaçava tão de perto. Umas correram a agarrar os filhos e outras ainda tentaram salvar as roupas que tinham estendidas a corar sobre os seixos.

O que se passou não pode ser descrito, o vagalhão entrou pela foz da ribeira arrastando todos quantos não tiveram tempo de por-se fora do seu alcance. Quando a formidável onda desceu, ainda foram vistas entre as espumas algumas mulheres e crianças por entre destroços vários ([14]).

A propósito desta tragédia, a veia poética do povo fez eclodir versos, que teriam a pretensão de a descrever e dos quais foi possível recolher as seguintes quadras:

 

Meus senhores este dístico

Foi uma história verdadeira

Aconteceu em Câmara de Lobos

Na nossa linda Madeira

 

A quebrada que caiu

Foi a do Cabo Girão

Levando muitos mortos

P'ra capela da Conceição

 

Na ribeira do Vigário

Mulheres, que roupa lavavam

Surpreendidas pelo mar

Por Nossa Senhora gritavam

 

A esta grande tragédia

Na terça-feira de Carnaval

Veio a Câmara de Lobos

A autoridade do Funchal

 

Quando esta notícia chegou

Ao palácio da fortaleza

Veio o Governo Civil

Ver esta grande tristeza

 

Câmara de Lobos luto vestia

Como símbolo das suas dores

No coração ficou sempre o dia

Em que perderam os seus amores

 

 

A instalação do

1º serviço balnear

Constituindo a praia do Vigário um dos poucos acessos que a população de Câmara de Lobos possui, é natural que, desde muito cedo, se tornasse um local de eleição para os banhistas.

Uma das primeiras referências de que temos conhecimento, relativamente à necessidade de uma estrutura de apoio aos banhistas da praia do Vigário, data de 1960 ([15]). Na sessão camarária de 27 de Abril desse ano, Francisco da Purificação de Barros e Sousa, na altura vereador, depois de salientar o facto de, desde há muito tempo, um grande número de munícipes acalentar a esperança de ver o concelho dotado de uma praia para banhos, viria a propor que a Câmara adquirisse quatro barracas com dois duches, bem como todo o material necessário, a fim de  as instalar na praia junto à foz da Ribeira do Vigário.

Na sequência desta proposta, a Câmara deliberou montar um serviço de apoio a banhistas, fixando em 1$00 o custo por pessoa relativamente à sua utilização. Ao que tudo indica, já nesse ano a praia do Vigário passaria a contar com estas infra-estruturas [16]. No ano seguinte, em 1961, seria construído um reservatório de água com capacidade para 900 litros a fim de melhor abastecer os duches existentes [17].

 

O 1º projecto de complexo balnear

 

Perante o interesse que o público vinha demonstrando relativamente ao serviço de apoio balnear montado a título experimental, na praia do Vigário e, tendo em conta que as barracas na altura existentes na referida praia, sendo de lona, não se prestavam à utilidade pública necessária, não só porque a sua conservação se tornava dispendiosa, como também não ofereciam as condições indispensáveis a um serviço com carácter definitivo, a Câmara, delibera, a 12 de Junho de 1963 encarregar João Gonçalves Telmo da elaboração de um projecto para a construção de um pavilhão balneário.

Este projecto daria entrada na Câmara a 31 de Agosto desse ano, tendo sido presente para discussão na sessão camarária de 9 de Outubro de 1963.

De acordo com a sua memória descritiva, os frequentadores da praia do vigário utilizavam para mudar de indumentária umas barracas de lona desmontáveis, que para além de inestéticas nenhumas condições de comodidade proporcionavam aos utentes.

Como tal, deliberou a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, substituir essas barracas por um pavilhão dotado de cabines-vestiário, duches e instalações sanitárias, não só para garantir aos frequentadores da referida praia um mínimo de comodidade exigíveis, mas também para urbanisticamente melhorar o local.

A implantação deste pavilhão balneário ficou prevista para ser efectuada na margem sul da rua Nova da Praia, devendo assentar sobre uma restinga rochosa sobranceira à praia, o que para além de diminuir os seus custos, protegia-o dos temporais marítimos. Na altura, a sua construção importaria em cerca de 194.000$00. No desejo de poder concretizar o projecto, a Câmara solicita a 11 de Outubro de 1963, a necessária autorização à Junta Autónoma dos Portos do Arquipélago da Madeira. Contudo, devido a problemas burocráticos, só na sua sessão de 5 de Fevereiro de 1964 é que esta haveria de dar parecer favorável.

 

 

O 2º projecto

de complexo balnear

 

Em Julho de 1964, quando eram já ultrapassados os prazos previstos no alvará de autorização, para a sua construção, a Câmara oficia novamente a Junta Autónoma dos Portos, solicitando a suspensão provisória das clausulas do alvará, uma vez que próximo ao local onde estava prevista a implantação do pavilhão balneário existia uma casa em ruínas, em péssimo estado, e era vontade da Câmara entrar em contacto com o seu proprietário a fim de negociar a sua demolição e, se tal acontecesse, o projecto já aprovado teria de sofrer alterações ([18]).

Tratava-se de um prédio situado na rua nova da Praia, sem logradouro, necessitando de premente demolição, mas onde viviam oito famílias em objecta promiscuidade e perigo moral e que considerando o impressionante aspecto infético e pestilento do local que urgia urbanizar com a construção de um pavilhão balneário [19], [20].

Na sessão camarária de 26 de Agosto de 1964 são dados poderes ao presidente da Câmara no sentido de negociar com o proprietário desse imóvel a sua aquisição ([21]).

Em Fevereiro de 1968, já na posse do imóvel, a Câmara acabaria por abandonar tanto a construção do projectado pavilhão balneário, como a demolição do imóvel adquirido e delibera adaptá-lo a cabinas de banho, encarregando o Gabinete Técnico do Arquitecto J. Simeão do respectivo projecto ([22]), que a 10 de Maio de 1968 dá entrada na Câmara ([23]).

Na sua sessão de 26 de Fevereiro de 1969, depois de vária correspondência trocada com a Direcção de Urbanização do Funchal, em virtude da grande onerosidade que envolvia a adaptação do imóvel em ruínas a cabinas de banho, a Câmara volta a optar pelo projecto inicial e solicita a necessária comparticipação ao Estado.

Contudo, uma vez mais o projecto não vai em frente e, em Agosto de 1970, a Câmara solicita um novo parecer à Direcção de Urbanização do Distrito do Funchal, relativamente à adaptação do velho imóvel, acabando por ser esta a solução escolhida. Contudo, só no verão de 1972 ([24]) é que provavelmente, terão sido os balneários instalados, sem que, ao que supomos, tivessem sido efectivados os projectos de adaptação elaborados em 1968.

 

As barracas como alternativa

 

 

Contudo, esta solução não viria a substituir as barracas, primeiramente de lona e depois feitas em madeira e cobertas a zinco, até porque, poucos anos depois, o prédio onde haviam sido instalados os balneários viria a ser ocupado por algumas famílias provenientes das ex-colónias portuguesas, regressadas à sua terra natal, em consequência da instabilidade político-social nelas verificada depois do pronunciamento militar de 25 de Abril de 1974.

 

O 3ºprojecto de complexo balnear

Foram estas barracas substituídas em 1984 por uma infra-estrutura com características definitivas e inaugurada a 22 de Junho desse ano. A sua construção, segundo um projecto sem qualquer relação com o de 1963, importaria em 4.500 mil contos. Composto, na altura da sua inauguração, por 12 balneários e de um espaço para restaurante e bar, este empreendimento previa ainda a construção de uma pequena piscina para crianças até aos 8 anos ([25]), que nunca viria a concretizar-se.

 

O acesso à praia do Vigário

O acesso tanto a esta infra-estrutura, como à praia do Vigário, fazia-se primitivamente através da rua nova da Praia. Contudo, a partir de 1986 passou a ser feito através do Largo da República [26]. Para isso, houve necessidade de construir uma pequena ponte, sobre a ribeira do Vigário, que a 29 de Novembro de 1993 viria a ser destruída pelo seu caudal, ponte essa posteriormente reconstruída em ferro.

No velho acesso à praia do Vigário, através da rua Nova da Praia existiu em tempos um fontenário, hoje desactivado, mandado construir por administração directa por deliberação camarária de 13 de Julho de 1955, concretizando-se desta forma um desejo que vinha desde 1951 ([27]) e que visava o aproveitamento dos sobejos da nascente dos Rêgos.

Foi aliás, também com o objectivo de aproveitamento das mesmas águas, que a Câmara mandou construir um lavadouro público na praia do Vigário ([28]).

 

O projecto de um sonhador

Entretanto, necessário será referir que, por volta de 1967, perante o impasse dos poderes públicos, a iniciativa privada tentou fazer um melhor aproveitamento da praia e, em Julho desse ano a imprensa noticia que um grupo de figuras muito representantes da vila de Câmara de Lobos, numa associação de vontades, iria realizar um grande plano urbanístico para a praia local, tornando-a num centro de veraneio e desporto de grande nível. Seriam cerca de 20, os camaralobenses, que, em sociedade anónima, tentariam dar nova faceta, sem destruir o aspecto típico, à parte baixa (no litoral) e à foz da ribeira daquela vila ([29]).

Ao que tudo leva a crer o impulsionador desta iniciativa terá sido João Gualberto Pita da Silva, um camaralobense que terá constituído nos anos 60 e princípios dos anos 70, uma das mais importantes referências na promoção turística da vila de Câmara de Lobos ([30]).

Ainda que o plano urbanístico que a associação pretendia desenvolver, tivesse morrido à nascença, a verdade é que João Gualberto Pita da Silva, empreendedor como era, viria a fazer em 1968 um grande investimento na praia do Vigário, onde instalaria por sua própria conta e risco, balneários para apoio aos banhistas e um restaurante dotado de uma zona de animação nocturna, onde não só actuavam grupos musicais, como também havia lugar para um “pezinho” de dança [31].

Durou esta iniciativa até cerca de 1971, altura em que, a eclosão de importantes temporais vieram destruir as infra-estruturas que João Gualberto Pita da Silva, construíra na praia e que, nas noites de Verão, constituía um importante pólo de atracção.

 

Outras referências

importantes

Para além da infra-estrutura balnear e do restaurante que hoje constituem as referências mais importantes da praia do Vigário, não poderemos deixar de salientar, pela sua proximidade, tanto a sede do Clube Naval de Câmara de Lobos, como o centro de dia para a terceira idade, o mesmo acontecendo com dois projectos que se tivessem sido concretizados viriam a ter importantes reflexos sobre o seu aspecto geral.

 

A sede do

Clube Naval

Sem aproveitamento efectivo para apoio balnear e depois de ter servido de alojamento temporário a algumas famílias de desalojados, provenientes das ex-colónias portuguesas, o velho prédio situado na praia do Vigário e adquirido, em meados dos anos 60, para no seu lugar surgir um complexo balneário, serve hoje de sede ao Clube Naval de Câmara de Lobos. Com efeito, por deliberação camarária de 12 de Setembro de 1991, é-lhe cedido o 1ºandar e, por nova deliberação de 22 de Julho de 1993, o rés-do-chão ([32]).

 

 

Um projecto

para um hotel

Constituindo a facilidade de acesso ao mar, um dos pontos mais importantes, em termos de opção turística e possuindo Câmara de Lobos inegáveis potencialidades neste sector, era natural que, mais tarde ou mais cedo, pudesse surgir para a mais importante praia de Câmara de Lobos um projecto turístico.

Ainda que, em 1967 tivesse surgido na imprensa uma notícia a esse propósito, mas pelas suas características, dificilmente concretizada, em finais do ano de 1990, o Arq. Tomás Taveira terá iniciado negociações com a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, com vista à construção de um hotel junto à praia do Vigário. Nesse sentido, chegou a Câmara a assinar com ele um contrato de promessa de compra e venda do espaço necessário.

Segundo o teor desse contrato ([33]), aprovado em sessão camarária de 13 de Dezembro de 1990, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos comprometer-se-ia a ceder ao Arq. Tomás Taveira ou, a uma sociedade dele dependente, o terreno que possuía no caminho das Preces, hoje estrada de Santa Clara, com frente para o oceano na zona da praia do Vigário para a construção de um hotel de 5 estrelas, com 20 pisos e com 350 quartos e, ainda, 100 apartamentos destinados a time sharing.

Como contrapartida, o Arq. Tomás Taveira elaboraria, num prazo de 3 meses, todos os estudos técnicos necessários à aprovação do projecto de arquitectura; construiria uma praia artificial e uma piscina pública integrada nesta praia; preservaria o espaço habitado e ocupado por um lar de terceira idade, assim como o bar e os apoios da praia (balneários), então existentes, embora com outra localização física; obrigar-se-ia a efectuar as obras de limpeza da ribeira e a manter as zonas exteriores públicas ajardinadas e ainda, a manter o livre acesso à praia de Câmara de Lobos.

Ao se tornar, este contrato, do domínio público, logo surgiriam inúmeras vozes discordantes, tanto dos partidos da oposição como de algumas individualidades ([34]).

Perante a forte contestação a este projecto, que teve a ver com o elevado índice de construção previsto, ainda que também não seja de excluir a influência negativa provocada pela imagem bastante desgastada do seu promotor, na altura envolvido num escândalo sexual, a Câmara aproveita a não elaboração do projecto no prazo contratual estabelecido, para, na sua sessão de 23 de Maio de 1991, o denunciar, apesar de em ofício da mesma data o Arq. Tomás Taveira ter solicitado a alteração da data da sua entrega.

Com efeito, tendo sido necessário ultrapassar algumas dificuldades, em termos de financiamento da obra, facto que terá obrigado a substanciais alterações do projecto, a sua conclusão viria a sofrer atrasos significativos, não sendo de excluir, ainda, que a eclosão da guerra do Golfo tivesse também contribuído para esse atraso uma vez que estariam envolvidos capitais árabes ([35]).

Com o cancelamento do contrato permaneceria a praia do Vigário integralmente do domínio público, o apoio balneário no local onde em 1984 havia sido construído, o mesmo acontecendo com o lar de dia da terceira idade a funcionar em instalações sobranceiras tanto à praia como à ribeira do Vigário. Perdeu-se contudo, foi a oportunidade de Câmara de Lobos ficar dotado de uma infra-estrutura turística que, se pudesse ter sido redimensionada às características do local de implantação, poderia ter constituído um factor de desenvolvimento de Câmara de Lobos, não só em termos económicos como sociais.

 

Um parque de estacionamento

 

 

Com o fim do projecto do Arq. Tomás Taveira, a praia do Vigário enfrenta agora o desafio que lhe irá ser colocado pelo projecto para toda a frente mar de Câmara de Lobos. Entretanto, enquanto tal projecto não é aprovado, isso não impede que surjam novas ideias para o local ou zonas limítrofes, como é a ribeira do Vigário. Tal é o caso de um projecto da autoria do partido socialista visando a cobertura da ribeira do Vigário, nas proximidades da praia do Vigário, como forma de ampliar o actual largo da República e resolver o problema do estacionamento na cidade de Câmara de Lobos e publicado na edição de 5 de Fevereiro de 1998, do Diário de Notícias. Esta iniciativa, depois de alguma controvérsia entre o partido socialista e social-democrata relativamente à autoria inicial da ideia acabaria por ser reprovada em sessão camarária.

 


 


[1]     O Jornal de 1 de Maio de 1934.

[2]     O Jornal de 25 de Agosto de 1934, através do seu correspondente em Câmara de Lobos refere que segundo constava, a comissão administrativa da CMCL iria mandar construir 6 lavadouros públicos na Ribeira do Vigário com água potável, melhoramento que vinha ao encontro de uma das correspondências de O Jornal

[3]     Acta da CMCL de 5 de Setembro de 1951.

[4]     Na sessão camarária de 28 de Dezembro de 1951, o chefe de Secretaria considerava prematura a sua inscrição no orçamento para 1952 uma vez que, por um lado a Câmara pretendia que ele fosse efectuado em regime de comparticipação e por outro ainda não tinha projecto nem estimativas de custos.

[5]     Acta da CMCL de 23 de Outubro de 1951.

[6]     Acta da CMCL de 26 de Agosto de 1953.

[7]     Acta da CMCL de 28 de Outubro de 1953

[8]     Acta da CMCL de 14 de Junho de 1961.

[9]     Acta da CMCL de 12 de Julho de 1961

[10]    Acta da sessão da CMCL de 14 de Junho de 1961.

[11]    No cimo do Ilhéu de Câmara de Lobos existiu um forte de São Sebastião. Rui Carita, que é quem mais frequentemente tem abordado as defesas da Madeira, ao que julgamos saber, nunca fez referência a este reduto. O facto de no livro de património da Câmara constar como antiga vigia leva-nos a admitir que tenha sido utilizado como meio de defesa da vila, aliás, não seria compreensível que a baía de Câmara de Lobos possuísse um reduto, denominado do Canavial e a praia do Vigário, que tal como a baía constituía um acesso fácil à vila de Câmara de Lobos não o tivesse.

[12]    Investigar melhor a preparação dos Aparelhos de pesca.

[13]    FREITAS, Manuel Pedro. A Vaga da Morte. Girão - Revista de Temas Culturais do concelho de Câmara de Lobos, nº2, 1º Semestres de 1989, pág. 52-54.

[14]    ROSA, J. Fernandes; FERNANDES, J. Pulquerio. A Vaga da Morte. Tipografia do Diário da Madeira, Funchal, 1930.

[15]    Livro de Vereações da CMCL, acta de 27 de Abril de 1960.

[16]    Encontramos adjudicação do fornecimento de duas barracas de banhos para a praia a João de Freitas, na acta da reunião da CMCL de 8 de Junho de 1960, bem como autorização, na acta da reunião de 28 de Setembro de 1960, para pagamento à sociedade de Serragens da Madeira, por material necessário às cabinas de banho da praia do Vigário

[17]    Acta da sessão da CMCL de 14 de Junho de 1961.

[18]    CMCL. Processo relativo à construção de um pavilhão balneário na vila de Câmara de Lobos

[19]    CMCL. Acta de 26 de Agosto de 1964.

[20]    Esta casa viria a ser completamente demolida no decurso de 2002, no decurso das obras de arranjo da praia.

[21]    Na altura era seu proprietário Manuel Baptista Pereira, residente no sítio de Jesus Maria José, freguesia de Câmara de Lobos.

[22]    CMCL. Acta da sessão de 28 de Fevereiro de 1968.

[23]    CMCL. Processo relativo à construção de um pavilhão balneário na vila de Câmara de Lobos.

[24]    CMCL. Acta da reunião de 28 de Junho de 1972.

[25]    Diário de Notícias, 23 de Junho de 1984.

[26]    Saber a data de inauguração (dia do concelho?)

[27]    Acta da CMCL de 28 de Julho de 1951

[28]    Acta da CMCL de 24 de Agosto de 1960.

[29]    Jornal da Madeira, 26 de Julho de 1967.

[30]    Com efeito, esteve envolvido em vários projectos turísticos, nomeadamente ao nível da restauração e onde se destaca o restaurante Tartaruga, o Riba-Mar e o Coral-Bar. Para além do investimento que fazia na gastronomia regional, não faltava a animação com música ao vivo, onde o folclore e o fado tinham espaço privilegiado. Encontramo-lo também em projectos mais ambiciosos nomeadamente num empreendimento denominado de Churchill Village, a ser construído na zona da Trincheira.

[31]    Diário da Madeira, 16 de Junho de 1968. No dia 7 de junho de 1968, a gerência do restaurante Riba-mar inaugurou, em Câmara de Lobos, uma praia de banhos e que e a melhor que existe na Madeira.

[32]    Na sessão camarária de 12 de Setembro de 1996 foi presente o resultado de uma deliberação do Governo Regional onde se dá conta da autorização da realização de um protocolo de cedência, a título precário e gratuito do edifício situado na rua Nova da Praia nº1 ao Clube Naval de Câmara de Lobos para nele instalar os seus serviços administrativos e de secretariado.

[33]    Diário de Notícias de 28 de Fevereiro de 1991.

[34]    QUINTAL, Raimundo. Cabo Girão. Diário de Notícias, Funchal, 10 de Março de 1991

[35]    Diário de Notícias de 28 de Fevereiro de 1991.

 

 

Câmara de Lobos

Dicionário Corográfico
Edição electrónica

Manuel Pedro Freitas

 

Câmara de Lobos, sua gente, história e cultura