CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Artigo de Manuel Pedro Freitas sobre a história da Rua do Espírito Santo publicado no Jornal da Madeira de 7 de Dezembro de 1997

 

 

Rua do Espírito Santo

 

Situa-se na encosta leste da baía de Câmara de Lobos, no sítio do Espírito Santo, estendendo-se desde a estrada João Gonçalves Zarco, junto ao seu cruzamento com a rua Dr. João Abel de Freitas, até à rua Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira, onde termina junto ao cemitério, não sem antes cruzar no seu trajecto, esta mesma rua.

Para além dos arruamentos que referenciam o seu início e fim, a rua do Espírito Santo tem ligações com a travessa pé de Pico, com o caminho do Pico da Torre e com a beco do Espírito Santo.

 

 

 

A Rua do Espírito Santo, situa-se na cidade de Câmara de Lobos e a sua denominação, atribuída por deliberação camarária de 18 de Maio de 1995, está relacionada com a existência no local, de uma capela fundada por João Gonçalves Zarco, com a invocação do Espírito Santo, facto que também viria a condicionar o nome do sítio onde se encontra implantada. Ainda que, antes desta deliberação este arruamento fosse já popularmente conhecido por caminho do Espírito Santo e, por isso, a Câmara mais não tivesse feito do que confirmar a tradição popular, esta resolução camarária viria, contudo, talvez por desconhecimento de quem a tomou, a anular uma outra verificada a 1 de Fevereiro de 1951 e que atribuía a este mesmo arruamento o nome do poeta camaralobense Joaquim Pestana.

Com efeito, a 1 de Fevereiro de 1951, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos, sob proposta do seu presidente, o Dr. Vasco dos Reis Gonçalves, delibera atribuir o nome de Joaquim Pestana à rua anexa à qual o poeta possuía residência e onde viveu durante muitos anos e que, da estrada João Gonçalves Zarco, na altura denominada de nacional 101 [1], se estendia até ao largo do cemitério. Como razões para tal homenagem a proposta referia a necessidade de perpetuar a memória do poeta natural de Câmara de Lobos, onde residiu a maior parte da sua vida e que se havia notabilizado pelos seus escritos poéticos, dispersos por inúmeras das publicações da época em que viveu, facto que o tornou apreciado não só em Portugal, como também no Brasil. Apesar das respectivas placas toponímicas terem sido instaladas, o tempo, e alguma negligência, ter-se-ão encarregue de as afastar prematuramente do olhar dos transeuntes e permitido que a sua memória, cedo, tivesse sido apagada.

 

Um dos primeiros arruamentos de Câmara de Lobos

Não sendo possível precisar o momento em que este arruamento surgiu, será no entanto lícito admitir que possa ter sido um dos primeiros que se delineou em Câmara de Lobos. A corroborar esta opinião, está naturalmente a existência da capela do Espírito Santo nas suas proximidades e a necessidade de um acesso entre esta e o centro do povoado, até porque, inicialmente, ela terá servido de sede da paroquia de São Sebastião, a quando da sua criação pelos anos de 1430.

Por outro lado, até à construção da chamada estrada monumental, este caminho também teria constituído a principal entrada e saída do centro povoado de Câmara de Lobos, relativamente ao Funchal, num percurso compreendendo para além deste arruamento, o hoje denominado caminho velho da Palmeira, caminho da Boa Hora, caminho dos Lamaceiros, caminho de João Ernesto Pereira e velha ponte dos Socorridos.

 

A Capela do Espírito Santo

Nesta rua, não podemos deixar de destacar a existência da Capela do Espírito Santo, tida como erigida por João Gonçalves Zarco e cedida em 1922 [2], a título precário e gratuito, para exercício do culto público católico à Confraria da Ordem Terceira de S. Francisco de Assis, da freguesia de Câmara de Lobos, na altura presidida pelo Padre Joaquim de Carvalho.

Infelizmente, apesar do seu significado histórico tanto para a freguesia e concelho de Câmara de Lobos, como até para a Região e sendo, como parece que ainda é, propriedade do Estado, salvo resolução posterior que se desconhece, é pena que nunca se lhe tivesse dado a atenção devida.

Apesar de neste momento não possuir acesso directo ao público e se encontrar encarcerada entre várias construções, autorizadas sem que houvesse a mínima preocupação de preservação do património local, julgo que ainda se justificaria uma intervenção conjunta por parte do Governo Regional, Igreja e da Câmara Municipal de Câmara de Lobos no sentido de a dignificar. Afinal de contas, esta capela (ou aquilo que ela representa da primitiva edificação) foi, ao que tudo indica, o berço da freguesia de Câmara de Lobos!

Ainda a propósito desta capela, recorde-se que ela possui uma imagem em mármore de São Tiago que segundo a tradição popular foi pescada no mar da malha, a uns 5 km da terra e que após a sua chegada ao porto da vila foi levada em procissão até à igreja matriz e daí para a capela do Espírito Santo, onde é venerada. Ao que parece, esta imagem permaneceu no seu estado primitivo até 1877, altura em que foi alvo de restauro, por sinal mau.

 

O Colégio da Preservação

Vivendo a classe piscatória, num ambiente de miséria, grande promiscuidade e correndo as jovens grandes riscos morais ou ainda de serem utilizadas sexualmente a troco de pequenas contrapartidas materiais, o padre João Joaquim de Carvalho, através da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, de Câmara de Lobos, de que era presidente, toma,  em 1923 [3],[4], a iniciativa de criar uma escola de regeneração para estas jovens desprotegidas. Esta ideia, não só é bem aceite pela população, particularmente pelas bordadeiras que, por sugestão do padre Carvalho, se organizam em núcleos por cada sítio com a finalidade de trabalharem na angariação de fundos, como por parte dos membros da chamada sociedade de então [5],[6]. Do aparecimento da ideia à sua concretização foi um passo e logo surgiu quem se disponibilizasse a ceder, para o efeito duas salas da sua residência. Contudo, apesar desta oferta, protagonizada por D. Maria Eugénia Bianch Henriques [7], a escola haveria de ficar instalada na capela do Espírito Santo e casa anexa, de que era detentor, por portaria 3.393 de 29 de Novembro de 1922, a Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Câmara de Lobos [8],[9].

 

 

A Congregação

de N. S. das Vitórias

Logo após a sua fundação, este colégio foi entregue à responsabilidade da Congregação de Nossa Senhora das Vitórias, que aí se instalam no dia 13 de Outubro de 1923, com uma equipa constituída pelas irmãs Maria de São Gabriel Ferreira (superiora), Maria Otília da Silva, Maria Matilde Gonçalves e Maria da Natividade de Melim. A direcção do colégio ficou, contudo, sob a supervisão directa do padre João Joaquim de Carvalho que, em 1931, se fez substituir pelo padre Abel Ferreira [10].

Amparar moral e religiosamente as filhas dos pescadores, como ainda lhes ensinar costura e a ler, constituíam os mais importantes objectivos do colégio.

 

Os objectivos

do colégio

A este propósito, o padre Joaquim de Carvalho recordava, em 1933, da seguinte forma, numa entrevista ao Jornal da Madeira a origem do colégio: Os filhos dos pescadores, em geral, acompanham os pais na rude e perigosa faina da pesca, mas as filhas... essas coitadas com a decadência da industria dos bordados começavam a entregar-se à mendicidade, indo até ao Funchal, na emergência de grandes perigos morais. [...] Embora haja muito boa gente que dê esmola com espírito de caridade, há outros que a dão com intuitos miseráveis. Eis a origem do colégio da Preservação cujo fim [...] é amparar moral e religiosamente as rapariguitas desde os 7 aos 18 anos, chegando-se mesmo a lhes dar de comer para assim se evitar que elas vão pedir esmolas, pelo que como já dissemos correm grandes perigos morais [11].

Da mesma forma, os estatutos da Ordem Terceira de São Francisco de Assis na sua reformulação de 24 de Março de 1933, no seu artigo 4¼., focam os objectivos do colégio da Preservação da seguinte forma: [...] esta assistência atenderá com a máxima compaixão às crianças pobres reunidas em uma casa já concedida a esta Ordem Terceira [...] que servirá de recolhimento diurno de preservação e assistência a crianças pobres, do sexo feminino, da classe piscatória e de outras classes indigentes, às quais deverão ministrar-se alguns socorros em alimentos e roupas e ensino de trabalhos domésticos que lhes permita viver no futuro honestamente [12]. A escola da Preservação era assim o oásis em cuja sombra se acolhiam, durante o dia, as raparigas pobres da vila e, onde, livres do contacto com más companhias e maus costumes, estudavam e trabalhavam em obras diversas como bordados, renda, costura e meias.  Ë noite regressavam a casa de seus pais, a maior parte deles pescadores e onde de uma forma ou de outra acabavam por lhes transmitir a educação e os exemplos que recebiam nesta instituição [13].

 

As dificuldades

do colégio

No entanto, muitas dificuldades foram necessárias ultrapassar para manter esta instituição a funcionar, particularmente até 1933, altura em que, a par dos donativos provenientes da Ordem Terceira de São Francisco e de ocasionais benfeitores, ela passa a beneficiar de um apreciável apoio por parte das entidades oficiais: Governo Civil, Assistência Distrital, Câmara Municipal de Câmara de Lobos, Assistência Nacional Dia Madeirense e principalmente a Junta Geral do Funchal. Durante esta primeira fase da vida do colégio da Preservação as irmãs passaram por grandes privações e viram-se muitas vezes obrigadas, após um dia de árdua dedicação às crianças, a trabalharem pela noite dentro com o fim de angariarem meios para poderem manter a instituição, chegando algumas, inclusive a superiora a verem afectada a sua saúde [14].  Subscrições públicas efectuadas principalmente no Funchal, realização de festas de caridade (bazares, festas da flor), donativos provenientes de benfeitores e dinheiros provenientes do trabalho de alguns núcleos de bordadeiras da freguesia constituíam, nesta altura, a principal fonte de receita desta instituição, que nos três primeiros anos era conhecida por Colégio da Regeneração [15].

 

A introdução

de uma sopa

No dia 22 de Junho de 1933 é introduzida  uma sopa regular, dada duas a três vezes por semana, facto que, veio criar um incentivo à frequência da instituição, por parte das filhas dos pescadores, passando de 160 sopas por dia, no início, para 250 ou mais um ano depois, período ao longo do qual foram servidas 26.274 sopas e a que correspondeu um custo de 14.248$25 [16]. Por outro lado, o acesso a esta refeição veio, também, colmatar algumas carências alimentares de muitas crianças, cujo estado de fraqueza era tão grande que não as deixava trabalhar, chegando mesmo a desmaiarem.

A educação musical era também um aspecto não descorado pelas irmãs de Nossa Senhora das Vitórias, chegando o colégio a possuir uma Schola Cantorum [17],[18].

Em Julho de 1934, a Câmara resolveu construir um fontenário à porta do Colégio da Preservação para utilidade pública, o que para além de servir o público veio facilitar o colégio, uma vez que este, não possuindo água canalizada, se via em dificuldades por causa da sopa [19].

Em Abril de 1946, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos manda adaptar um salão situado nas proximidades da capela do Espírito Santo, para aí instalar uma escola de ensino primário, cuja direcção entrega às irmãs de Nossa Senhora das Vitórias, tendo as aulas início a 28 desse mesmo mês [20].

 

A exiguidade

das instalações

Em 1952 a casa de residência das sete religiosas que, na altura, viviam no colégio da Preservação e constituíam assim o quadro docente, possuía unicamente dois quartos de dormir e uma minúscula e escura sala de jantar, espaço naturalmente exíguo e que de certo modo reflecte, as inúmeras carências porque ao longo dos tempos passaram as Irmãs de Nossa Senhora das Vitórias nesta sua obra de assistência em Câmara de Lobos

Com o apoio proveniente não só das entidades oficiais como de outros benfeitores, foi não só possível assegurar a continuidade da sopa ministrada às crianças, como realizar importantes melhoramentos na capela e casa anexa, onde funcionava o colégio, particularmente a partir de 1980, altura em que foram as suas instalações substancialmente ampliadas.

Ao longo dos anos muitas foram as jovens a quem foi dada oportunidade de terem uma adequada formação moral e religiosa. Até 1952, pelo menos 12 jovens já haviam enveredado pela vida religiosa, passando a serem membros da Congregação de Nossa Senhora das Vitórias e entre 1933 e 1951 haviam-se matriculado no colégio cerca de 4.000 crianças [21].

Em 1952, de acordo com o Jornal da Madeira de 27 de Julho o colégio possuía 150 alunas externas que aprendiam o 1º e 2º grau, religião e trabalhos manuais e domésticos.

 

O fim do colégio

da Preservação

No entanto, por circunstâncias várias, a que provavelmente não será alheia uma alteração progressiva das condições de vida dos pescadores e dos meios e metas que, em termos de educação, estavam ao seu alcance ao tempo da sua criação, o colégio acabaria depois, por se afastar gradualmente, sem podermos precisar quando, dos objectivos para que foi fundado, para se transformar, exclusivamente, num estabelecimento de ensino primário particular.

Desta forma, através do alvará n¼ 1218 de 12 de Agosto de 1952, é concedido à Congregação das Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, autorização para funcionamento de uma escola primária para o sexo feminino, denominada de Escola da Preservação.

 

A escola do

Espírito Santo

Com esta denominação permaneceu este estabelecimento de ensino até 1981, altura em que, por Despacho de 13 de Outubro do Secretário Regional da Educação e Cultura, passa a chamar-se de Escola do Espírito Santo.  Em 22 de Maio de 1984 é autorizado o funcionamento da escola em regime de coeducação, ou seja misto e mais recentemente, seria colocado em funcionamento um sector de educação infantil.

A par da actividade escolar os membros da Congregação das Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias presentes na escola, colaboram activamente na formação cristã das crianças da paróquia onde o estabelecimento de ensino está sitiado.

 


[1]     A Estrada João Gonçalves Zarco é a denominação dada por deliberação da Câmara Municipal de Câmara de Lobos, na sua sessão de (...) à estrada regional de ligação do Funchal com o Oeste da Ilha da Madeira, no seu trajecto pelo interior do concelho de Câmara de Lobos, ou seja entre a ponte dos Socorridos e o extremo oeste da Quinta Grande. Esta estrada primitivamente teve as denominações de estrada monumental, de estrada Vieira de Castro, na sua extensão entre o Funchal e a então Vila de Câmara de Lobos, de estrada nacional 23, de estrada nacional 1, de estrada nacional 101 e de estrada regional 101.

[2]     Portaria de 3:393 publicada no Diário do Governo I série, nº 248 de 30 de Novembro de 1922.

[3]     Diário da Madeira, 11 de Abril de 1923.

[4]     Diário da Madeira,19 de Abril de 1923.

[5]     Diário da Madeira, 11 de Abril de 1923.

[6]     Diário da Madeira,19 de Abril de 1923.

[7]     Diário da Madeira,19 de Abril de 1923.

[8]     Diário do Governo, I série, n¼. 248, de 30 de Novembro de 1922.

[9]     O Jornal, 1 de Setembro de 1934.

[10]    Jornal da Madeira, 27 de Julho de 1952.

[11]    O Jornal, 8 de Agosto de 1933.

[12]    Jornal da Madeira, 27 de Julho de 1952.

[13]    O Jornal, 18 de Junho de 1927.

[14]    Jornal da Madeira, 27 de Julho de 1952.

[15]    O Jornal, 8 de Janeiro de 1924.

[16]    O Jornal, 7 de Julho de 1934.

[17]    O Jornal, 7 de Julho de 1934.

[18]    O Jornal, 1 de Setembro de 1934.

[19]    O Jornal, 7 de Julho de 1934.

[20]    Diário de Notícias, 15 de Abril de 1946.

[21]    Jornal da Madeira, 27 de Julho de 1952.

 

 

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Manuel Pedro Freitas

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